Ruínas de uma fábrica de lanifícios

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Autoria | José Manuel Moura Alves

Criado em | .

Estilo poético | Versos livres

Há muito se calaram os teares
Onde as “lançadeiras” endoidadas
Entrelaçavam como loucas,
A trama de infindáveis fios de lã
Que a incansável “fiação” enrolava nas canelas
Num estonteante vaivém ritmado.

Há muito desaparecerem os concêntricos tambores
Rodando alinhados ao longo do comprido veio
Que no alto das paredes impulsionavam
As enormes correias de couro
Sedutoras do nosso olhar
Num carrossel ensurdecedor
Que abalava os tímpanos.

Há muito os cardos deixaram de “esgarrar”
As mãos calejadas e ágeis dos cardadores
Manipulando experientes
Os fardos de lãs
Chegados das tosquias.

Há muito se esvaiu o odor carregado das tintas
Que se escapava das caldeiras
E do “Hidro” da tinturaria
Há muito desapareceu o olhar
Das fiandeiras, tecelões,cardadores,
Cerzideiras, Atadeiras
Espinçadeiras, Urdideiras..

Trabalhadores vestidos de ganga
Desafiando o azul do Céu na Primavera
Contrastando com as cores vivas ou apagadas
Dos “cortes” de fazenda
Estendidos a secar como bandeiras
Esticadas à força
Na “ Rambola”.

Hoje, apenas te sobraram as paredes nuas
Erguidas num sepulcral silêncio
Só cortado pelo cantar indiferente
Das águas da ribeira
Que antes faziam girar a tua alma
Em forma de roda gigante

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