Rua da Amoreira

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Autoria | Maria Eugénia Gonçalves de Moura (Gomes)

Criado em | Abril 2015

Estilo poético | Quadras

I
Na rua da Amoreira
Vivi minha mocidade.
Éramos uma família
Brincávamos em liberdade.

II
Uma grande amoreira
Num dos quintais existia.
E assim ficou o nome
Da rua que a possuía.

III
Uma rua movimentada
A qualquer hora do dia.
Casas cheias de gente
Repletas de alegria.

IV
Crianças não faltavam
P´rás diversas brincadeiras.
Nos balcões nós morávamos
Às filhas e mães verdadeiras

V
Nas caixas dos sapatos
Bonecas de trapos dormiam.
Mais tarde as de casquilho
Até os olhos abriam

VI
Fazíamos-lhes as roupas
Dávamos-lhes de comer.
Arroz apanhado nos muros
Cachilros pr'azeite fazer.

VII
Nos frascos das injecções
Tapados com a borrachinha
Guardávamos o azeite
P'ra temperar a comidinha.

VIII
Os cantinhos, as pedrinhas,
O rebisco, a apanhada,
As semanas , a macaca,
A bonzera bem acertada.

IX
O óculo e o pula um
Brincadeiras tradicionais.
A gancha e o rodízio
Pau de bico e outros mais.

X
Todos tínhamos um nome
Com o qual nos baptizavam
Mas era pelo alcunha
Que nos identificavam.

XI
Os alhos,tripas, leitões,
cozinhas, cebolas, gigis,
cigueiras, grilos, pregos,
santa, gordos, cabrais,
rata, barromona, demo,
farias, linos, tanganhos,
chixas, sabanicos,
zé morto, rufinas, as d'avó,
menano, chagas, rolhas,
pirolas, tomé, machado,
canhão, carneiro, pipineira,
Todos viviam na rua da Amoreira.

XII
Figuras que nos marcaram
Vou lembrar a vida inteira.
Tia Batista, Tia Elvira,
Cego da Cecília, Tia Pinheira.

XIII
Nos balcões vasos floridos.
Sardinheiras e outras mais.
Coloriam a nossa rua
E as quelhas laterais.

XIV
Na quelha do Sr. Veloso
Zé Rufina e a boa disposição.
Tocava a concertina
Reinava a animação.

XV
Na quelha da Cecília
Havia um caroleiro
Com uma pedra redonda
Partia-se o milho inteiro.

XVI
Descer a Quelha do Rato
Era uma grande aventura.
Pois nossos sapatos pisavam
Uma poia mole e escura.

XVII
Descer os Passos do Senhor
Escorregando no varão.
Era uma das brincadeiras
Das crianças d'então.

XVIII
Tinha muitos recantos
A quelha do Sr. António João.
Jogávamos ao rebisco
Quem chega primeiro põe a mão.

XIX
A água corria no rego
Nós atrás dela também.
Um barco que deslizava
Era assim nosso entretém.

XX
Travava-se a água no rego
Para a rua lavar.
Pés descalços chapinhavam
Neste tradicional refrescar.

XXI
Os eléctricos do cimo
Passavam aqui também.
Exalando fortes odores
Não agradando a ninguém.

XXII
Amassa o pão meado
O pregão a ecoar.
A lenha que enchia o forno
Começava a crepitar.

XXIII
No forno da Tia Morcela
Andava grande agitação.
Batia-se o pão-leve
Para a festa da Ressurreição.

XXIV
O supermercado da época
Era a loja do Tio Leitão.
Desde o caroseno ao azeite,
Linhas, tecidos e o botão.

XXV
Morriam muitos anjinhos
Era preciso um caixão.
Ir à rua da Amoreira
Era a única solução.

XXVI
O Sr. José Cruz
Empregado do Armazém
Vendia fazenda a metro
P'ró fato do pai e da mãe.

XXVII
Em casa da Tia dos Anjos
A labuta era original.
Vendia leite aos quartilhos
Fazia queijo e manteiga divinal.

XXVIII
O Sr. Cardoso de Moura
Doou sua habitação
Além de outros bens
Para uma fundação.

XXIX
Hoje é a Rua Coronel Reis.
Foi feita uma homenagem
A um filho de Loriguenses
Homem bom e de coragem.

XXX
A rua onde nasci e cresci
Quase já não tem ninguém.
A água ainda corre no rego
Num constante vai e vem.

XXXI
Santo António está triste
Ninguém passa para pedir
O milagre que tantas vezes
Fez muita gente sorrir.

XXXII
Sobre a rua onde nasci
Escrevi o que sabia
Para que a futura geração
Saiba como se vivia.

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