A história do Tónio, em Loriguês

Autoria | José Manuel Moura Alves

Criado em | .

Estilo poético | Versos livres

PARTE I

Foi-se o respigo da luz
da lamparina do púcaro de barro
de asas esbreiceladas
que pendia do postigo do desvão
preso com duas travincas e um baraço
roubado do molho de carquejas.

O céu de inverno escureceu.
Depressa cresceu a barduça,
depois uns pinguitos.
Em seguida uma bátega
como se todos os cântaros da fonte
se despejassem no zinco amolancado da palheira

Até o cachorro amorcegado na escaleira
correu estremunhado ao calhas pelo lapacheiro
embaraçando-se num chapéu aforricado
trazido pelo vento desde a Quelha da Formiga
até ficar ali virado como um cachipon cheio de silvas e carumas

O Tónio espreitou do palanquim
hasteando um rendízio ferrugento
arremedava a irmã
ao mesmo tempo que a bachicava
com as Beirolas que caíam do caleiro:

"- Anda prá qui, filho de uma égua!
Que te estás a ensopar todo…"
Gritou numa veneta a avó
escanchada na braseira
enquanto passava nas pernas cheias de chouriças
as mãos escairadas pela invernia.

"- Vem cá que já te dou o arroz!"
Acrescentou o pai do Tóino
gesticulando com grande cramunha
sentado em cima da taleiga da farinha
enquanto pregava duas brochas
nos tamancas da sogra.

O pirralho assustado, correu,
deu uma topetada na pedra da lareira
e esmangualou-se ao comprido
caindo em carvalhó nas rachas
batendo com as trombas na panela de trempas
que o deixou todo esmoucado.

A mãe, até então amerzundada na cozinha,
esperando que as calhorras fervessem,
pegou no Tónio às andrilhas
enquanto cantava ao som dos trovões
"…bendito e louvado seja…
- Quem te mandou sair daqui???
…o santíssimo sacramento…
- Não estavas bem cá dentro???
…da eucaristia…"

PARTE II

O Tónio cresceu.
Era agora um rapaz bonito e escorreito
livre das bostelas que durante meses lhe cobriram a cara
e que faziam os amigos afastarem-se dele como se tivesse peçonha.

Era vê-lo agora ao finar do dia,
ora empoleirado no cruzeiro,
ora com com os pés na levada
a catrapiscar a Dosanjos que chegava do mato,
cansada de acariar lenha,
meio escondida pelo molho de torgas sobre a rodilha de cores.

O Tónio gostava mesmo dela
até ficava com ar esbasbacado
quando a via toda flausina sabanicar-se na praça
a caminho da novena do mês de Maio.

O pior de tudo era a mãe dela.
Na vila, todos diziam que era uma calhandrona.
Era mesmo uma grolda estiporada
mordia mais que um alacrário.
Com a neura dobrava-se mais que uma cobra colandrina.

O Tónio sabia disso
Desde que um dia, lampeiro,
pôs uma sardanisca na pedra
onde a irmã da Dosanjos escrevia a tabuada.
Assustada, a miúda mandou a pedra ao ar.
A sardanisca caiu no naco de broa esqueixada que a mãe comia.
Ficou derramada!
Numa veneta, levantou o cusapeiro do mocho e correu atrás do Tónio:
"- Ah! Camangolão, cachorro dum raio que te faço em fanicos…"
O Tónio só teve tempo de fugir
e enfiar-se na furda do bácaro de onde só saiu à noite
não antes de ter dado um valente bate-cu na pia
que o deixou transido de frio e coberto de lavadura.
Os amigos que brincavam à risca assorriaram-no!
Ao verem que o Tonio ainda levava na cabeça
umas cascas de batatas, gritaram:
"- Ió… ió… Lá o leva."

O pai era um paz d,alma…
Era manco desde miúdo.
Contava que um lobo malhadiço
lhe havia fincado os dentes numa perna.
Passava agora os dias junto à taberna do Cristóvão
Bebendo e peteirando com os costumeiros frequentadores.

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