Carta de um emigrante à Nossa Senhora da Guia

Autoria | Padre Francisco Moreira Neves

Criado em | .

Estilo poético | Quadras

Desculpa, Virgem-mãe, Nossa Senhora,
Que te escreva esta carta, em que te diga
O que mais quer dizer-te, nesta hora,
O filho mais humilde de Loriga.

Da minha terra vim para o deserto,
Porque é sempre deserto a terra alheia.
Mas, se te lembro, sinto-me tão perto,
Como se fosse ver-te à minha aldeia

Sei que , ao longo da vida, não me esqueces.
Sei que não me abandonas um só dia.
Ouves, no céu, a voz das minhas preces.
Mesmo a distância, o teu olhar me guia.

Não me largas a saudade, quando penso
No velho lar beirão em que nasci,
Logo molho de lágrimas o lenço,
Como posto a chorar ao pé de ti.

Porque faz bem chorar na dor sofrida.
Porque faz bem chorar na solidão,
Recordando o altar da tua ermida
A que nos anda preso o coração.

Daqui te evoco à sombra do pinhal,
Saindo à rua sobre o teu andor,
Ou eu já não trouxesse Portugal
A cantar-me no sangue, em teu louvor:

Mas o berço deu, jamais se apaga.
O que aprendemos a rezar outrora
É que nos cura o mal de cada chaga
Que nos rasga pelo mundo fora.

O trabalho não custa O que nos pesa,
O que que mais cá por dentro nos arrasa
É comermos o pão da nossa mesa,
Sem que seja ao calor da nossa casa.

Mas tu não faltas. É contigo apenas
Que nos juntamos em família amiga.
Como nas claras tardes das novenas,
Ao repicar dos sinos de Loriga.

Faz, Senhora, que um dia volte a ver-te,
Como nos tempos em que minha mãe
Me levava a teus pés, para dizer-te
O que não te diria mais ninguém.

Se longe estou, que que seja de passagem
E depressa regresse ao teu pinhal,
Para florir de novo a tua imagem,
E nunca mais sair de Portugal.

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