Avô Luís

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Autoria | José de Jesus Pina

Criado em | .

Estilo poético | Quadras

Cabelos brancos e rugas, tinha o meu avô
Assim eu o via quando era pequenino
Foram as fadigas que com o tempo amassou
Que na sua alma e corpo fizeram ninho

Baixava das alturas da grande montanha
Vigiando e trazendo os animais ao curral
Coberto de neve e com força tamanha
Enfrentava na serra a inclemência invernal

Eu corria e saltava alegre ao seu regresso
Nos seus rudes e lentos braços me atirava
O seu colo era para mim um meigo berço
E, juntando os dois corações ele me abraçava

Ao acariciarem, as suas mãos calosas,
Sentiam-se suaves, como seda a deslizar,
Eram velhas mas, para mim eram formosas
Estavam desgastadas de tanto trabalhar

Sobre os seus cansados ombros ele me levava
Até à sua casa de campo da Resteves
Ao som do tlim-tlão das campainhas ele marchava
Que badalavam com o caminhar das reses

Contava que a Serra da Estrela era colossal
Grande, muito alta, com seus picos nevados
Para os serranos era o seu templo espiritual
Seu ganha-pão e alimento dos seus gados

No Brasil, foi um trabalhador incansável
Onde passou sacrifícios e muita saudade
Em Portugal, foi um fazendeiro respeitável
Deu pão aos seus, amor e felicidade

Um dia, tocaram os sinos por um morto
Por um homem que alguma vez, sim, foi feliz
Era um Loriguense, oriundo do Porto
Homem rijo e bom, morria o meu avô Luís

Na serra já não se ouve o seu assobiar
Mas perdura o seu eco entre os grandes penhascos
Por ele vagueia o seu duende sem parar
Marcando lentas pisadas que deixam rastos…

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