Albano de Pina Melo

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Albano de Pina Melo nasceu em Loriga a 15 de Março de 1869. Filho de António de Melo e de Maria Teresa de Pina, lojistas, ambos moradores em Loriga. Foi neto paterno de Tristão de Melo e de Maria de Jesus e neto materno de António de Pina Pires negociante, e de sua mulher Maria Nunes, doméstica. Teve um irmão um ano mais velho, de nome António de Pina Melo que faleceu quando perfez 20 anos.

Como órfão e herdeiro único, recebeu de seus avós vários terrenos de cultivo, casas, um estabelecimento comercial, uma fábrica de lanifícios e o crédito de numerosos empréstimos. Os principais valores herdados foram a Quinta de São Cosme, na freguesia de Sandomil e, em Loriga, a Fábrica das Tapadas, à qual mudou o nome para Fábrica Nacional de Lanifícios.

Do casamento com Maria Emília Nunes nasceram em Loriga os quatro filhos mais velhos. Desconhecemos pormenores do que se terá passado na sua actividade empresarial. Sabe-se apenas que se desfizeram da Fábrica Nacional de Lanifícios e que se fixaram na quinta, em Sandomil, onde nasceram os filhos mais novos.

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Em São Tomé

Terá o final do século XlX trazido dias difíceis para a actividade industrial das fábricas de Loriga? Portugal atravessava desde há anos uma tremenda crise económica, política e social. Albano Melo teve certamente problemas financeiros que o levaram até a tomar a decisão de hipotecar a quinta e a deslocar-se com sua mulher e o filho mais velho para a ilha de São Tomé. Ali exerceram as suas actividades tomando conta de duas roças – a Roça Fraternidade e Roça Montes Hermínios.

Partiram de Lisboa no dia 7 de Setembro de 1905 e chegaram ao seu destino a 24 do mesmo mês. Em 7 de Setembro de 1908, passados três anos, Albano regressou a Portugal com sua mulher, que passava muito mal de saúde por não aguentar o clima tropical. Mulher de pequena estatura física, mas de grande determinação e vontade, veio assumir a administração da quinta.

Meses depois, em 7 de Dezembro de 1908, Albano voltou para São Tomé. A vida não lhe terá corrido de feição e em 22 de Novembro de 1910, dois anos volvidos, regressou a Portugal deixando definitivamente as roças.

Partida para o Brasil

Meio ano depois, em 9 de Junho de 1911. embarcou para Manaus onde chegou no dia 27 do mesmo mês. Esta decisão de emigrar para Manaus deve relacionar-se com o conhecimento que havia do sucesso de uma plêiade de loriguenses que desde os finais do século XVlll mourejavam por terras da Amazónia. Lá iria encontrar muitos parentes, amigos e conhecidos da sua terra e, em especial, o seu filho José Pires de Pina Melo que o antecedeu na ida para Manaus. Cerca de um mês após o encontro, o pai teve o desgosto de assistir à morte de José, em 20 de Julho de 1911.

Um a um foram chegando os restantes filhos, António, Albano, Eugénio, Herculano e por fim o Júlio. A sorte dos tempos não favoreceu a junção familiar pois as dificuldades de vida provocadas pela chamada "crise da borracha" teve como corolário a sucessiva saída dos filhos para Angola.

Convicto de que as coisas haviam de melhorar, teimosamente, o pai Albano ficou em Manaus continuando a sua luta. As coisas por África não sorriram e alguns filhos voltaram a Manaus, enquanto outros regressaram ao Continente, juntando-se à mãe na Quinta de São Cosme. As doenças tropicais e a "pneumónica" destroçariam os que optaram pelo retorno a Portugal.
Permanecendo na Amazónia, graças ao seu espírito empreendedor e à sua teimosia e perseverança, Albano de Pina Melo viria a possuir uma olaria cuja produção forneceria a grande fase de construção do casario de Manaus. Com o dinheiro ganho, foi adquirindo herdades imensas na margem do Rio Negro, em frente à cidade, de entre as quais distinguimos:

  1. Fazenda Bacuri, contendo uma casa de moradia e estábulo. A propriedade, com mil metros de frente por mil metros de fundo tinha como limites ao norte a margem direita do Rio Negro, ao Sul os lotes "Retiro l" e "Retiro ll" que lhe pertenciam, a Leste o Igarapé do Caranguejo e a Oeste igualmente com terras que lhe pertenciam.
  2. Retiro l , com a área de um 1799926 m2 e um perímetro de 6564 metros lineares, medindo 1710 metros de frente em linha recta.
  3. Furo Grande l com a área de 35074 m2 e um perímetro de 738 metros lineares, medindo 247 metros de frente, contendo dois fornos, um barracão e uma casa de madeira,
  4. Furo Grande ll com a área de 38192 m2 e um perímetro de 906 lineares, medindo 341 metros de frente.
  5. Boca do Loural com uma área total de 172500 m2 e um perímetro de 1800 metros lineares, medindo de frente 600 metros lineares.
  6. Santa Lúcia com uma área de 2962503 m2 e um perímetro de 10310 metros lineares, medindo 4065 metros de frente.
  7. Santa Lúcia ll com a área total de 558500 m2 e um perímetro de 2923 metros lineares, medindo de frente 1040 metros lineares
  8. Marinho situado na margem esquerda do rio Solimôes, com 102 metros de frente e 1600 metros de fundo.
  9. Retiro ll com a área total de 345445 m2 e um perímetro de 2660 metros lineares, medindo 1010 metros de frente.
  10. Dois lotes sem denominação, medindo um 197 metros de largura por 1632 metros de fundo e outro com 100 metros de frente por 1602 metros de fundo. Os terrenos são contíguos, contendo um bananal.

Não temos notícia do uso que terá feito de tantos terrenos, para além daquele em que explorava um bananal, mas acreditamos que não os terá mantido improdutivos.

A Fazenda Marajó-Miry

Da Fazenda Bacuri temos uma descrição através de uma reportagem no Jornal do Comércio, aquando de uma entrevista feita a Albano de Pina Melo. O artigo intitulava-se "O progresso da pecuária amazonense". O texto dá uma imagem da elevada consideração que gozava na sociedade de Manaus e do valor da primorosa exploração agropecuária que dirigia.

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O Senhor Albano Pina Melo, há muitos anos domiciliado no Amazonas, que ele considera como sua terra, de onde não mais pretende retirar-se, é um homem de grande iniciativa e actividade assombrosa. Tendo adquirido do outro lado da baía do Rio Negro, a vinte minutos, em lancha, de distância desta cidade, uma faixa de terra de quinhentos hectares que formaram outrora a Rocinha Lima Bacury para ali transportou-se e fundou a sua granja a que deu o nome de fazenda Marajó-Miry.

Com a sua extraordinária capacidade de trabalho transformou o núcleo em belíssima estação pecuária, iniciando a criação de vacas para fornecimento de leite à população de Manaus. Realizou assim um problema que mais tarde outros procuraram imitar, embora em muito menor escala.

Lá estivemos um dia destes de manhã. A impressão que colhemos, não podia ser melhor, logo à entrada onde o panorama que se desenhava era o de que nos achávamos diante de um estabelecimento verdadeiramente magnífico. Uma casa de campo, aliás com as condições higiénicas que fariam inveja a algumas habitações nesta capital, mais para um lado três estábulos asseadíssimos ocupando uma área de sessenta e três metros por cinquenta e quatro, em volta um campo eivado de capim de vários tipos. Mais à frente inúmeras árvores frutíferas dando um aspecto de pomar, aí está a fazenda Marajó-Miry, em todos os seus aspectos pitorescos. O gado é gordo e sadio, constando de trezentas e setenta e cinco cabeças, das quais cento e sessenta são vacas leiteiras, havendo cinco bonitos reprodutores de raça holandesa, muitos novilhos, garrotes e vitelas. Na "Marajó–Miry" estão empregados vinte homens, ocupados exclusivamente no serviço da pecuária. O leite é tirado à uma hora da madrugada sob a observação imediata do Sr. Albano. Antes não pode porque quer que o leite da sua fazenda seja sempre puro de modo a não haver reclamações. Daí por diante poderá então satisfazer largamente a freguesia ao domicílio. Diariamente são obtidos duzentos litros que devido à sua excelente qualidade e pureza se consome num ápice no seu bem montado e actualizado estabelecimento denominado Leitaria Albano.

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Albano de Pina Melo, cercado por vacas e vitelas

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Albano de Pina Melo com parte do pessoal da Marajó–Miry

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Interior da Leitaria Albano

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(Da esquerda para a direita) - Na Leitaria - Albano de Pina Melo acompanhado de seus filhos António e Albano

Fixou-se no Brasil

Albano Pina Melo não mais voltou a Portugal. Temerosa de voltar para climas tropicais sua mulher não satisfez a vontade do marido de ir viver em Manaus. Naturalizou-se brasileiro no dia 25 de Outubro de 1924 e deve ter tomado a decisão de ficar.

Viveu maritalmente com uma amazonense de nome Ana Maria da Conceição de quem teve uma filha que perfilhou, criou com enlevo e carinho, a quem, ainda em vida, deixou boas condições económicas, sem necessitar de se habilitar à herança. Os descendentes de Albano de Pina Melo estão repartidos sensivelmente em partes iguais pelo Brasil e por Portugal, ultrapassando, no seu conjunto, quase uma centena, deixando pois uma autêntica família luso-brasileira.

Faleceu em Manaus a 5 de Janeiro de 1941 com 71 anos de idade.

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Carteira de Identidade de Eleitor

Árvore GENTES DE LORIGA



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