Abílio Luís Ramalho

Abílio Luís Ramalho nasceu em Loriga a 8 de Março de 1903, filho de António Luiz Ramalho e de Amélia Pina Calado.

Notabilizou-se pela sua luta sindicalista em prol dos benefícios a que os trabalhadores tinham direito, nomeadamente, na reivindicação do horário das 8 horas de trabalho.

Luta pelos direitos dos operários

Muito cedo foi trabalhar na indústria de lanifícios da sua terra, mas sempre envolto num espírito de revolta com tudo o que achava errado no relacionamento de trabalho. Loriga tinha, na altura, mão-de-obra em demasia, e quando a oferta é superior à procura, dá-se um desequilíbrio desfavorável numa das partes. Quem perdia era, sem dúvida, a classe trabalhadora.

Na altura o horário de trabalho não existia: quem trabalhava, recebia, se não trabalhava, não havia nada para ninguém. Caixa de Previdência, Fundo de Desemprego, Férias, Feriados, nada, absolutamente nada. Note-se que todas as fábricas no tempo eram movida pela força da água e, nos verões secos a ribeira de São Bento quase secava. Aí os patrões recusavam-se a pagar os tempos de paragem por falta de água. Os agricultores construíam poças pela ribeira acima, os patrões mandavam destruir por operários "bem mandados". O jovem Abílio Ramalho rejeitou sempre fazer tal trabalho, e apontou sempre o dedo a quem o fazia, informando os agricultores dos que tinham sujados as mãos. Mas outros problemas o preocupavam mais. A falta de um horário de trabalho e a prática do trabalho de sol a sol, que começava cerca das 6 horas da manhã e se estendia até às 20 horas num total de 12 horas aproximadamente, revoltavam o Abílio da "Amélia" como era conhecido.

O Padre Lages na altura tinha então dado cobertura à criação da Associação Católica de Operários e Artistas. Esta Associação funcionou na casa ainda hoje conhecida por "Casa do Josué", e é ali que o jovem Abílio Ramalho, mais o seu companheiro Manuel Russo aprenderam as primeiras letras.

Começa, então na Covilhã a luta reivindicativa de 8 horas de trabalho diário, iniciada em princípio por uma organização anarco-sindicalista, e seguida pelo Movimento Nacional Sindicalista, fundada recentemente pelo jovem doutor regressado de Lovaina, Francisco Barcelos Rolão Preto, cuja célula em Loriga era constituída por Abílio Ramalho, Manuel Russo e Abílio Melo. Estes três jovens deslocavam-se a pé por essa serra fora até à Covilhã, para reuniões várias, estendendo por esta via a luta travada em Loriga. Contava que numa dessas idas à Covilhã teve de fugir, pois todos os seus camaradas de luta tinham sido presos nessa noite, e levados para nunca mais voltarem. Ainda hoje se desconhece o que Salazar lhes destinou.

Abílio Ramalho, reivindicador convicto, anarco-sindicalista por tendência, não tinha medo de envergar a camisa azul com a cruz vermelha, símbolo da organização a que se orgulhava de pertencer, desafiando assim o patronato da sua terra. Alguns operários ingratos chamavam-lhe o "Testa de Ferro", quando, afinal, este homem não lutava só por si. O Abílio esteva convicto e sabia que os camaradas operários o iriam trair. Uns, acasulavam-se no medo e na ignorância, outros, protegidos pelo capote do patrão, bocejavam aldrabices para continuarem protegidos com a benzedura do caciquismo.

Entretanto, o horário foi conquistado. Mas… daí até a sua aceitação foi ainda um grande passo. Criada uma multa para os não aderentes, Abílio Ramalho acusa os seus próprios patrões por falta de cumprimento, e a firma Lages é multada em 500$00. Conhecendo o facto reúnem-se os patrões e decidem impor ao patrão José Lages o despedimento do seu operário, e ficou ali acordado ninguém lhe dar trabalho, obrigando-o assim a sair de Loriga. Nenhum dos seus camaradas de trabalho se levantou contra essa injustiça e deixaram que o Abílio partisse, carregando a sua pesada cruz.

Parte para Sacavém, com dois filhos nos braços, e a esposa carregava um outro na barriga. Homem duro, não quebrava facilmente. Arranja trabalho na fábrica dos adubos, carregando vagões de sacos de 100 Kg às costas. Passa por lá muitas dificuldades para sustentar a família. Habita um a barraca, em Sacavém, feita de madeira apodrecida, que o vendaval numa noite lhe destrói, passando o resto da noite com a esposa e os três filhos debaixo de cartões, gemendo as crianças toda a gélida noite.

Por lá aguenta alguns anos, até que chega a segunda guerra mundial, e por volta do ano de 1942 regressa a Loriga, a convite do seu irmão José da "Amélia", para explorarem volfrâmio na serra. Manteve-se na serra até final da guerra, quando o volfrâmio deixou de interessar. Decorridos estes anos, o "ódio" ao Abílio da "Amélia" tinha ficado diluído, o muito trabalho nas fábricas era evidente. É então que o Sr. Cardoso de Moura e o Sr. Carlos Cabral (pai) decidem empregá-lo na Fábrica Nova, onde se manteve até à reforma. Pesaram-lhe os anos, mas ficou-lhe sempre o mesmo ideal. Nunca vergou a ninguém. Impunha-se pelo seu trabalho e verticalidade. Nunca aceitou bem os sindicalistas corporativistas que algumas vezes segredou de "Casa dos Fantoches".

Foi um apaixonado da Corporativa Popular de Loriga, ali se dedicou na arte de cozinhar confeccionando bons petiscos, como dobrada, febras fritas ou ainda iscas de cebolada, com os quais muitos se consolavam e que hoje ainda alguns recordam. Abílio Luís Ramalho faleceu em 16 de Julho de 1974, com 71 anos de idade, Loriga viu partir um dos seus filhos, homem vertical, que nunca torceu e a quem o operariado da sua terra muito ficou a dever. O funeral realizou-se para o cemitério local onde foi sepultado e ficou a descansar em paz, ao fim de uma vida de luta pela justiça no trabalho e pelas justas e dignas reivindicações em prol de todos os trabalhadores da sua terra.

Árvore GENTES DE LORIGA



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