Os que partiam

As partidas para a região Amazónica marcaram profundamente Loriga nos últimos dois séculos.

Em Loriga, enquadrada numa região serrana onde a vida assumia particular dureza, desde há muito se cultivava o hábito de contactos e viagens para fora dos seus limites, para potenciar recursos, como homens de montanha, como negociantes de lãs. Terão sabido das oportunidades que o Brasil oferecia. E assim, para contornar dificuldades várias, começou um exigente ciclo migratório, que convocava particular coragem e meios para enfrentar um desafio de contornos muito diferentes do até aí vivenciado, quer em lonjura, quer em condições de vida. Envolveu praticamente todas as famílias da vila. Foi transversal em termos de classes sociais, prolongou-se por longas décadas e deixou raízes nos dois lados do Atlântico.

Há um mundo de histórias, cheias de emoção, que cada família pode ilustrar, sobre a sua participação neste movimento, motivada sobretudo pela procura de melhor sorte e fortuna num outro país onde se dizia ser fácil enriquecer.

Destacamos três testemunhos.

António Mendes Cabral Lages, que conviveu de perto com a realidade da emigração para o Brasil na sua qualidade de pároco de Loriga, dá-nos conta de uma partida ainda na primeira metade do século XIX:

Zé Janeiro nasceu em Loriga, no Vinhô, já com 24 anos de idade em 1841; alto, espadaúdo, de tez morena curtida na serra. A mãe tudo arrumou na arca de pinho e, na véspera da saída, despediu-se dos parentes. A caravana de quatro moços carregaram as arcas da viagem, passaram a Portela do Arão, Valezim, Vilacova à Coelheira, Catraia de São Paio, Venda de Galizes e encaixaram-se como puderam na diligência (carro conduzido por três muares). No fim de três dias chegaram a Coimbra. Após um dia de descanso em Coimbra tomaram outra diligência - a mala posta. No fim de seis dias estavam em Lisboa prontos a embarcar num veleiro até Belém do Pará. Chegariam ao destino cerca de quatro meses depois, onde amigos e parentes os aguardavam.

Algumas décadas mais tarde, mas ainda no século XIX, já se sentia no local de destino evolução no perfil de emigração e na rede de contactos. Parte mais um loriguense, nas condições descritas pela sua própria filha, Lucília Normélia:

Emílio nasceu em 1883 na pequena Vila de Loriga, no seio de uma família abastada. Seu pai era possuidor de várias fábricas de lã. Escreveu a um dos seus cunhados para saber a possibilidade de se mudar para o Brasil. Seu cunhado possuía uma farmácia, era formado em Coimbra. Quando chegou a Manaus foi trabalhar na farmácia do seu cunhado com quem passou a morar.

O século XX trouxe como mudança relevante, a renovação, a família, o começo de uma nova geração e de mudança nos relacionamentos, nomeadamente com a terra natal. José Moura Carreira, já nascido em Belém mas continuando bem ligado a Loriga e a Portugal, dá-nos a sua visão deste contexto:

O início da emigração para o Brasil, no que à minha família concerne, data de 1900, quando o meu tio-avô viajou para Belém do Pará. De um modo geral, os loriguenses encontraram emprego no comércio, particularmente no ramo das mercearias e bares, onde portugueses outros, aqui estabelecidos, lhes davam preferência, pois tinham fama de serem trabalhadores e honestos e disso davam provas. A integração na sociedade local, não deve ter sido das mais fáceis, já que, naquele tempo, o trabalho e a própria legislação trabalhista, não lhes deixava margem ao ócio. Com os casamentos a família cresceu e com essa segunda geração, a integração passou a ser uma constante e sem óbices.

No entanto, as ligações com Loriga, jamais deixaram de ser umbilicais, como sempre o foram. Afinal, Loriga, mais que uma vila alcantilada na serra, é para todos os loriguenses aqui radicados, sinónimo dos seus antepassados, dos seus familiares. Os loriguenses e, de uma maneira geral os portugueses – a julgar pelo meu pai – viam Portugal como o eldorado do merecido ócio, o paraíso sempre sonhado, a coroar toda uma vida de árduo trabalho. No entanto, a existência de filhos, netos e bisnetos – enfim, o criar raízes – no mais das vezes, distorce essa visão, e o Brasil, para eles, acaba por se confundir com o Portugal, que tanto adoram.

As voltas da emigração

A emigração de Loriga para a Amazónia foi excepcionalmente intensa, das mais expressivas do distrito da Guarda. Dois momentos diferentes marcam a sua evolução – o primeiro abarca as várias décadas do século XIX até aos primeiros anos do século XX e o seguinte, os anos que lhe sucederam nesse novo século.

Diferentes no contexto que se vivia no local de acolhimento.

De maior acalmia no século XX, mais exigente ao longo do século XIX, enfrentando mudanças profundas a nível político e social. Uma economia regional em profunda viragem, capitalizando a inovação tecnológica associada à borracha, que culminou num ciclo de excepcional desenvolvimento de 1870 até próximo de 1910.

Diferentes em dimensão

Segundo investigação que desenvolvemos, tomando por base os pedidos de passaporte e as fichas de qualificação consular inseridas na página Gentes de Loriga no FB e Arquivo Nacional da Torre do Tombo, terão partido para a Amazónia Pará no primeiro período mais de 800 loriguenses, reduzindo para cerca de duas centenas no período seguinte.

Verificou-se uma evolução significativa das partidas, sempre crescente, até meados da década de 1890, com o pico principal em 1894 e 1895, decrescendo depois até 1905 e mais ainda nos anos seguintes.

Diferentes nas características sócio demográficas do fluxo migratório

Durante o século XIX partiam muito jovens, frequentemente entregues a si próprios, apenas à atenção de um familiar próximo, muitas vezes oriundos de famílias numerosas, por vezes endividados para pagar a passagem. Eram quase todos homens (95%), a maioria com idade inferior a 30 anos (escalão 20-29 dominante, logo seguido do escalão 0-19), cerca de um quarto proprietários.

Cedo foi percebido que “ler e escrever bem” e a capacidade de saber desempenhar um ofício, era essencial para garantir autonomia no local de destino. Cerca de 25% sabiam ler e escrever, um nível um pouco superior ao grau de alfabetização em Loriga em 1900 – 13%. A emigração a partir das últimas décadas do século XIX, para além da dominância das profissões ligadas ao comércio, integrou especialistas de diversos ofícios, particularmente da indústria têxtil e construção civil. Passou a integrar também gestores de indústria e comércio, que abriram diversos estabelecimentos e fábricas. Os contactos e o capital ligados à indústria de lanifícios em Loriga, facilitaram as viagens e desenvolveram a ambição. Quase todos os filhos da primeira geração de industriais buscaram fortuna nessas terras. Capitais oriundos do Brasil apoiaram nas épocas de crise.

No século XX

No segundo período – século XX, a dinâmica migratória assume já contornos diferentes, desde logo pelo abrandamento no ritmo das partidas e também por uma integração crescente no novo país de acolhimento, visível na vinda das famílias – as mulheres já representavam cerca de 40% das novas chegadas.

Comum aos dois períodos, o facto de ser uma emigração espontânea, apoiada em fortes laços de parentesco e vizinhança, desenvolvida ao longo de gerações. Uma malha de relações que ajudava a operacionalizar a partida, o acolhimento na chegada, a sustentar os negócios de família na região de destino.

Uma parte com algum significado - os mais afortunados, viaja para Portugal várias vezes - habitualmente de 3 em 3, ou de 5 em 5 anos, mas regressam ao Brasil. Quando tomam a decisão de partida para o novo país o seu objectivo é voltar à terra de origem. Contudo, com a integração no país de acolhimento, com a criação de novos laços familiares -primeira descendência, criam-se novos hábitos e acontece algum distanciamento nomeadamente em relação à terra natal. O retorno acontece apenas para uma minoria.

Manaus e Belém

No início do século XX, Manaus e Belém, eram as duas localidades que possuíam a maior população loriguense depois da terra natal. Foram o destino de quase todos os rapazes que ao atingir a idade de trabalho, tinham dificuldade de enquadramento profissional. A maioria integrou a actividade comercial, área que os loriguenses historicamente bem dominavam pela sua ligação ao negócio da lã.

O jornal “O Povo de Loriga” (Manaus 1910) publicita diversas sociedades comerciais na cidade Manaus, de que são exemplo “Pina e Ferreira”, “Pina e Gouveia”, “Brito e Pina”, “Diogo e Martins”, “Moura e Pina”, “Pina e Prata”. Surpreendentemente, o mesmo jornal refere uma outra área de negócio que os loriguenses dominaram em Manaus – as olarias, no seu todo, são propriedade de loriguenses, admitindo para seus serviços conterrâneos nossos e de outros povos limítrofes a Loriga. Um negócio relevante num período marcado por um forte ritmo de construção.

Quanto ao Pará, passou a ser o destino de preferência, quando Belém, com o seu porto, passou a ter mais importância económica que a capital do vizinho Estado do Amazonas. Diversos loriguenses se destacaram como proprietários ou administradores de empresas comerciais e industriais, ocuparam lugar de relevo em órgãos autárquicos e animaram uma intensa na vida associativa.

Ligação a Loriga

Belém e Manaus, possuíam um alto nível cultural para a época. A Colónia loriguense sobressaía nomeadamente pela grande quantidade de jornais que um pequeno grupo de loriguenses letrados criou e tentou manter nas duas capitais amazónicas, com o objectivo de fortalecer as suas redes de solidariedade e afectividade grupal. Serviram como instrumento importante para fomentar a relação e interligação da Colónia com Loriga, a nível literário, noticioso e também político.

De 1901 a 1910 foram lançados 7 títulos, 5 deles em Manaus:

  • 1901 - O Patriota
  • 1905 - 6 de Agosto e Loriga Literária
  • 1906 - O Loriguense e Echos de Loriga
  • 1909 - A Voz de Loriga
  • 1910 - O Povo de Loriga

Neles se dava conta, nomeadamente, das diversas iniciativas que essa comunidade desenvolveu a favor do progresso de Loriga e bem estar dos loriguenses.

Das pesquisas que fizemos, apercebemo-nos de um traço fundo que marcava os loriguenses radicados no Brasil no princípio do século XX - uma enorme solidariedade interna à colónia, bem como uma ligação activa e interventiva a favor de Loriga e do seu desenvolvimento. Nessa época a Colónia loriguense reuniu um significativo volume de recursos para executar as mais variadas iniciativas. Estas remessas representaram uma importante contribuição para a economia interna de Loriga, possibilitando significativas transformações no seu espaço urbano. Em Manaus e Belém avançavam favoravelmente as subscrições para a construção das fontes e canalização da água, para instalação da luz eléctrica, para a criação da Banda da Música, para apoiar o culto da Senhora da Guia, para o Grupo Prémio Escolar Loriguense, com o objectivo de estimular e prestar auxilio aos jovens estudantes loriguenses. Mais tarde, António Cardoso de Moura, que bem cedo emigrou, doou os bens que possuía para a criação de uma Fundação que ainda hoje prossegue no estímulo à educação.

A “Voz de Loriga” - número único editado em Manaus em 1909, voltou por breves meses a ser editado em 1924, desta vez em Loriga, tendo tido larga aceitação em Belém do Pará. Estimulava colaborações que dessem ênfase ao sentimento de unidade e solidariedade entre os loriguenses. Os contributos dos loriguenses emigrados eram acolhidos indistintamente, mesmo aqueles que se faziam na base das desilusões, da falta de perspectivas futuras e manifestamente na contramão dos mitos ainda em voga da árvore das patacas e do Brasil como terra da promissão.

Presentemente, os descendentes de loriguenses ocupam bom nível social e técnico-profissional, que honra as suas ascendências. Perdura e continua a afirmar-se até hoje um elo centenário que interliga as duas comunidades Loriga e Amazónia – todos os anos, no mesmo dia, no Centro Loriguense de Belém, os “brasileiros” do outro lado do Atlântico juntam-se aos restantes loriguenses na homenagem a Nossa Senhora Guia.

Bibliografia

  • Texto da autoria de Margarida Pina Reis
  • Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros
  • Arquivo Nacional Torre do Tombo - Passaportes
  • PINHEIRO, Geraldo Sá Peixoto, Periodismo Loriguense, Revista de Estudos Amazónicos, nº 4, 2013
  • BRITO, Eugénio Leitão, "Os Loriguenses na Amazónia", Porta da Estrela, 15 Agosto 1981
  • LAGES, António Mendes Cabral, "Emigração dos primeiros filhos de Loriga para o Brasil", 1838-1845, texto inédito.
  • MARTINS, Lucília Normélia V. F. Mendes dos Reis Pinto, "Antes que me esqueça", 2014
  • CARREIRA, José de Moura, testemunho, Fevereiro 2016


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