O sonho brasileiro

A emigração tem sido, desde há muito, uma realidade na vida dos naturais de Loriga. Aliás, não se pode dizer que constitui um fenómeno isolado em Portugal. Considera-se normalmente que, a partir dos meados do século XIX, o número dos que partiam atingiu níveis consideráveis, com marcantes efeitos no saldo demográfico nacional. Em algumas regiões, contudo, já antes de 1850 essa questão preocupava os analistas. Alexandre Herculano, em 1838, qualificara a emigração portuguesa dos últimos anos como “espantosa”. Haveria motivos consistentes a justificar o facto. Lembre-se que os anos 30 do século XIX foram de grande turbulência na vida portuguesa. Provavelmente, por essa altura teriam saído para o Brasil alguns loriguenses. Alexandre C. Castello, o biógrafo do Dr. Mendes Lages (o médico natural de Loriga que viria a ser conhecido pelo se envolvimento nas questões sociais e ideológicas que abalavam a sociedade portuguesa), informa que, na década de 50 do século XIX, Mendes Lages, então estudante em Coimbra, receava ser forçado pelo pai, no caso de não ter êxito nos exames, a ir para o Maranhão “para empregar-se no comércio”. A eventualidade de tal futuro afigurava-se-lhe tão sombria que só podia comparar-se à morte. Essa apreensão pode ser um indicador dos perigos que se apresentavam ante os que deixavam o país. Leva a supor, igualmente, que, a esse tempo, outros loriguenses teriam emigrado já, tendo dado a conhecer as suas aventuras e desventuras.

Assim, não estarão fora de razão os que fazem remontar às guerras civis entre liberais e miguelistas ou ao período tumultuoso que sucedeu ao final (oficial) desses conflitos (cuja paz foi assinada em 1834) a partida dos primeiros loriguenses que, no Brasil, buscavam uma prosperidade que não conseguiam antever numa terra tomada pelo ódio e pela violência. Segundo J. M. Sardica (in Terminar a Revolução), nesse período “O banditismo ou bandoleirismo social eram o modo de vida de milhares de cidadãos armados – civis e militares desmobilizados da guerra […]. A desordem, a violência, o roubo, o saque de casas, o espancamento, o assassinato […] eram tanto mais frequentes quanto maior era a distância em relação a Lisboa”. A região envolvente de Loriga viveu tempos de desassossego, com bandos de guerrilheiros ou salteadores, uns dizendo-se liberais, outros preferindo a causa miguelista (diferentes mas semelhantes nos métodos). Num estudo incidindo sobre esses conflitos Fátima Sá Ferreira (in Rebeldes e Insubmissos) refere-se à ”Revolta da Serra”, enfatizando a acção das ”forças de Loriga” ou da “guerrilha que se reuniu em Loriga”, com mais de cem homens, entre eles numerosos eclesiásticos. Alvoco da Serra, Pedras Lavradas, Oliveira do Hospital são outros locais nomeados nesta história de guerrilhas que se opunham à nova ordem. A aparente simpatia das gentes de Loriga pelos absolutistas não significa uma entranhada relutância no que concerne aos ideais de modernidade apregoados pelos adversários do antigo regime. Porém, em épocas de anarquia as confusões ideológicas, bem como os ajustes de contas e os mal-entendidos, são frequentes e nem sempre os chamados progressistas têm atitudes de acordo com nobres ideais. No lado liberal avultava o bando dos Brandões, que aterrorizava toda a região. O seu chefe era o famigerado João Brandão, cuja memória perdurou, atravessando gerações. Ainda há poucos anos, em Loriga, era frequente ouvir os mais idosos, ao referirem-se aos moços buliçosos que, com as suas tropelias, provocavam a reacção dos menos pacientes: “Andam para aqui estes varandões…”, numa referência aos tais Brandões.

Neste ambiente de insegurança os homens de negócio loriguenses não ousariam lançar-se aos caminhos para vender os costumados produtos (peles ou tecidos manufacturados) ou para se abastecerem, não só do que era essencial à vida quotidiana, mas também de matérias-primas para as suas indústrias. Os de mais iniciativa, sentindo-se coarctados no seu modo de vida, teriam optado por sair, procurando longe o que a sua terra não proporcionava. A normalização da vida (em Loriga e em muitas outras regiões) demorou a estabelecer-se. Segundo informação colhida no já citado texto de Castello, o pároco de Loriga, que andara fugido, só em 1853 se atrevera a regressar à sua paróquia.

O ambiente de paz conseguido depois de anos de lutas políticas reflectiu-se, naturalmente, na região serrana. A partir dos meados do século XIX, pequenas empresas têxteis foram surgindo, o que terá a ver, não tanto com a existência de rebanhos de ovelhas, mas com a força das águas das ribeiras que, ao precipitarem-se pelas encostas, faziam mover os engenhos. Apoiada na energia hidráulica a vida dos loriguenses foi-se transformando. (A inovação tecnológica, baseada no vapor e, depois, na electricidade, terá consequências adversas para a região, pois a indústria libertar-se-á dos condicionalismos geográficos relacionados com a montanha). Nos anos de expansão as fábricas de lanifícios iam absorvendo cada vez mais jovens. Através do Inquérito Industrial de 1881 ficamos a saber que em Loriga existiam então 6 fábricas de lanifícios empregando 151 homens e 29 mulheres. Dois desses estabelecimentos industriais tinham importância muito reduzida, pois cada um ocupava somente 6 trabalhadores. A agricultura subsistia em pequenas courelas, sustentadas, quase por milagre, em fortes muros (vulgarmente designados por cômbaros), erguidos, num duro combate contra a montanha, por gerações de obreiros. Nessas courelas o milho fora-se tornando a cultura dominante graças à abundância de água. Mas essa agricultura, ainda que entrosada na criação de vacas (cujas vidas se confinavam ao reduzido espaço das palheiras), cabras e ovelhas, só por si, não oferecia condições de sobrevivência com o mínimo de dignidade a uma população em crescimento.

Loriga estava longe dos mercados e, para agravar a distância, nas primeiras décadas do século XX a estrada que ligava à sede do concelho ainda não fora concluída. Em 1910 chegava somente a Valezim. Os custos de transporte entre a estação ferroviária de Nelas e Loriga sofriam um considerável acréscimo, pois era forçoso efectuar o transbordo, em São Romão, dos carros para o dorso de animais. Perdia-se dinheiro e tempo. Estes transtornos provocavam o encarecer dos produtos manufacturados. Assim, só através de baixos salários os preços seriam competitivos. Nos meses de Verão a água faltava e as fábricas não laboravam, o que avolumava as dificuldades… Se tudo isto afectava as vidas da maioria, não significa que as dos menos pobres fossem muito risonhas. Mesmo nas famílias que iam escapando ao ciclo de pobreza extrema, a terra e o pequeno comércio não permitiam responder às precisões. O elevado número de filhos em cada família significava fraccionamento nas parcelas de terra ou nas poupanças. Era difícil entrever na continuação dos estudos, para lá da escola primária, uma alternativa que permitisse ascensão social. (De 1886 a 1906, alguns jovens de famílias mais abastadas, de Loriga e outras localidades, tinham a possibilidade de frequentar, no Piódão, um colégio fundado e dirigido por um ilustrado loriguense, o cónego Manuel Fernandes Nogueira).

Para um grande número de naturais de Loriga, a emigração afigurava-se como única saída. E, nesses tempos, falar em emigração era falar em Brasil onde escasseava a mão-de-obra necessária ao desenvolvimento. Essa escassez verificava-se já muito antes da abolição da escravatura, que só ocorreria em 1888. Desde os finais do século XVIII que se erguiam as vozes (especialmente na Europa) dos que condenavam o tráfico de escravos. A Grã-Bretanha tornou-se a líder da campanha contra esse flagelo e a poderosa marinha inglesa passou a exercer o policiamento internacional, esforçando-se por impedir as viagens dos navios negreiros que tentavam fazer a travessia do Atlântico. A nível diplomático, o governo britânico pressionava outros países (por exemplo Portugal, com interesses nos negócios esclavagistas, o Brasil, carecendo de escravos…) para porem termo a tal comércio. Com dificuldades crescentes em conseguir mão-de-obra, os proprietários brasileiros voltaram-se para a Europa, procurando contratar trabalhadores (aparentemente livres) através de engajadores que adiantavam o dinheiro da viagem em troca de contratos iníquos que impunham a esses emigrantes uma autêntica escravatura.

Este problema não tem muito a ver com Loriga, pois não parece que os seus emigrantes tivessem utilizado tais vias considerando que Loriga estava longe dos circuitos de engajadores e os que daqui partiam não desejavam trabalhar na agricultura. Dirigiam-se para as zonas urbanas. Belém, no estado do Pará, e depois Manaus (em crescimento devido à grande procura da borracha) foram os núcleos onde se concentraram mais loriguenses. Esta emigração assentava em redes familiares ou de amigos. O pai, o tio, o padrinho chamavam para junto de si o jovem (muitas vezes ainda criança), assumindo o compromisso de o proteger nos primeiros tempos. Em alguns casos, para o pagamento da passagem a família contraía dívidas, hipotecando a casa, as courelas… Assim sendo, concordo com a opinião de César de Oliveira no sentido de que, numa primeira fase, “só para aqueles que conseguiam o «pé-de-meia» indispensável para as passagens ou que vendiam terras” a viagem para o Brasil era possível”. Aliás, no caso de Loriga, mesmo no pico do movimento migratório a partida parece inacessível aos que não dispunham dos meios indispensáveis. O que não quer dizer que um ou outro dos menos abonados não tivesse conseguido realizar o sonho de partir. Para os que viam fechada a porta do Brasil, abrir-se-ia, com o desenvolvimento da indústria na periferia de Lisboa, uma janela de esperança. Sacavém, onde foi crescendo, a partir das primeiras décadas do século XX, uma numerosa comunidade loriguense, viria a ter na vida de Loriga uma importância determinante. Mas esta é outra história…

A emigração rumo ao Brasil irá continuar e, década atrás de década, as viagens iam sendo mais fáceis, graças aos progressos técnicos que permitiam encurtar distâncias. Enquanto no mar os veleiros eram substituídos pelos barcos a vapor, em Portugal os caminhos-de-ferro tornavam mais cómoda e mais rápida (o que se reflectia nos preços) a viagem para Lisboa. Porém, os primeiros quilómetros continuavam difíceis, pois Loriga permaneceu no isolamento, sem estrada, até ao final da segunda década do século XX.

Nos primórdios desse século, os visitantes de Loriga consideravam que a maioria da sua população era laboriosa mas extremamente pobre. Por vezes, na imprensa do concelho era designada como “colmeia, formigueiro humano”, com as famílias vivendo em espaços acanhados, sem luz e sem ar, em arruamentos tortuosos, possuindo todas as condições propícias a explosões de cariz epidémico (como aconteceu em 1927, ano da epidemia de tifo exantemático). Neste lance, Loriga era então muito referida na imprensa nacional, pelas piores razões: as condições miseráveis dos seus habitantes. Apesar de algumas leis que pretendiam impedir o trabalho fabril de crianças, era comum começar-se a trabalhar na fábrica com sete anos de idade. Aliás, tal não acontecia somente em Loriga. Na Covilhã e em Gouveia, isso era igualmente comum.

Nestas vidas tão difíceis, com inúmeros perigos fazendo sentir a fragilidade da existência, a religião aparecia como o grande amparo. Mas os santos tradicionais talvez não dessem resposta aos novos problemas. Por isso, na segunda metade do século XIX foi crescendo o culto pela Senhora da Guia, que se tornou a padroeira dos que partiam, quer fossem numa simples viagem de negócio quer partissem na aventura da travessia do Atlântico. Ao lançarem o último olhar à capelinha recentemente erguida, meio encoberta pelo arvoredo, tinham a consciência de quanto era incerto o futuro. A festa anual, em Agosto, representava o momento de união entre os devotos de um e do outro lado do Atlântico. No país de exílio - mas igualmente de sonho -, o culto pela Senhora unirá os filhos da terra natal, dando coesão à comunidade loriguense.

Bibliografia

  • Texto da autoria de Maria Lúcia de Brito Moura
  • Castelo, Alexandre Coutinho, O Doutor António Mendes Lages 1838-1916, Porto, s.d.
  • Ferreira, M. de Fátima Sá e Melo, Rebeldes e Insubmissos. Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, 2002.
  • Herculano, Alexandre, “A emigração para o Brasil”, Opúsculos, Tomo II,1986, pp. 66 e 586.
  • Moura, Maria Lúcia de Brito, O concelho de Seia em Tempo de Mudança. Dos finais do séc. XIX ao desabar da 1ª República, Seia,1997.
  • Oliveira, César, “Os municípios no liberalismo monárquico constitucional”, História dos Municípios e do Poder Local (dir. César Oliveira), Lisboa,1996, p. 189.
  • Sardica, José Miguel, Terminar a Revolução, Lisboa, 2016.


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