Breve história de Loriga

O texto deste artigo, agora revisto e atualizado, elaborado pelo Loriguense Augusto Moura Brito, foi originalmente publicado na obra Cancioneiro da Vila de Loriga e no livro sobre os 110 anos da história da Banda de Loriga com o título Da Philarmonica Loriguense à Sociedade Recreativa e Musical Loriguense.

Enquadramento geográfico

Loriga é uma vila e freguesia do concelho de Seia, distrito da Guarda, situada na parte sudoeste da Serra da Estrela e dista 20 km de Seia, 80 km da Guarda e 9,2 km da Lagoa Comprida. Tem uma povoação anexa, o Fontão e faz parte do Parque Natural da Serra da Estrela. Está situada a cerca de 770m de altitude, é rodeada por montanhas, das quais se destacam a Penha dos Abutres (1828m de altitude) e a Penha do Gato (1771m) e duas ribeiras: a da Nave e a de São Bento que se unem formando a ribeira de Loriga. Os seus socalcos majestosos conferem-lhe uma configuração única e ímpar na região do vale glaciar.

Das origens à fundação da nacionalidade

Construir uma pré-história sobre Loriga é ainda nos nossos dias um desiderato impossível, pelo facto de, até à data, não terem sido aí encontrados quaisquer vestígios deste longo período que vai até à invenção da escrita, por volta de 4.000 a.C. na Mesopotâmia. Os primeiros vestígios localizados em Loriga, são de um período mais subsequente e foram localizados no denominado castelo/castelejo, onde ainda por volta de 1759, como nos informam as Memórias fornecidas pelo padre Cardoso aos delegados do marquês de Pombal, ser ainda visível a existência de vestígios dos alicerces dos muros .

É neste contexto que assinalamos o desenvolvimento da cultura castreja que percorre o I. Milénio a.C., determinando o cimo dos montes - as suas zonas de preferência – os locais que melhor ofereciam a estas comunidades as condições ideais de defesa, habitação e pastoreio.

Apesar da presença incerta dos celtas no interior do território português, sabemos que a existência, de um bairro em Loriga com a designação de São Ginês poderá estar certamente associado à origem do santo celta São Gens martirizado pelos romanos.

Por questões de alteração demográfica entretanto observadas ao longo do I milénio a. C. e, também devido a importantes inovações determinadas pelos aspetos económicos, sociais e espirituais destas comunidades de pastores, a zona do Chão do Soito, foi uma área onde estas novas populações encontraram os recursos naturais essenciais – água e melhores terras agrícolas e de pastoreio - para se fixarem. Desse período ainda existe uma espécie de sepultura antropomórfica, popularmente conhecida, como o Caixão da Moura.

Após a chegada dos romanos à península ibérica – século II a.C. – os romanos vão-se fixando por todo o território português procedendo à romanização do espaço que denominaram de Lusitânia uma das divisões administrativas da Hispânia. Os resultados desta romanização foi tão intenso e tão rico e autêntico que, no ano de 1993, após termos procedido a uma prospeção “in sito” no local – Chão do Soito - os vestígios da sua presença foram inequívocos. Como resultado desta intervenção podemos comprovar que alguns dos vestígios encontrados antes e agora e, dos quais destacamos: fragmentos cerâmicos, imbrex e tegulae (telhas) e opus signinum (argamassa feita de cal hidráulica) comprovam o uso e a utilização desta região como de preferida inicialmente. Para atestar esta tese, também na zona circundante foram encontradas mós, caulino e infraestruturas de uma rede viária que, segundo Jorge Alarcão, se julga ser a estrada de Aeminium que atravessava o interior da Beira. A “estrada velha” como também é designada, construída segundo as técnicas e os materiais usados pelos romanos, atravessa toda a localidade e vai constituir até à construção - nos meados do século XX da estrada EN231 e em 2006 da EN338 - o mais importante eixo de ligação desta região serrana.

Com a derrota dos romanos, o domínio da Hispânia foi nos princípios do século V e até aos princípios do século VIII sucessivamente dominado, primeiro pelos suevos e depois pelos visigodos até à invasão dos muçulmanos no ano de 711, substituindo assim o reino visigodo pelo Al-Andaluz.

Dos inícios da nacionalidade à revolução industrial

Com a conquista da individualidade política de Portugal no século XII, Loriga aparece-nos como um lugar, termo e identidade territorial próprias, surgindo a sua alusão nas inquirições de D. Afonso III (1248-1279) como sendo um senhorio doado a João Rhania; nas cartas de confirmação de privilégios no reinado de D. Pedro (1357-1367); na carta de coutadas certas herdades e quintas concedidas a Rodrigo Afonso Machado por D. João I (1385-1433); na carta de doação de D. Afonso V (1448-1481) a Álvaro Machado em 1474; nas cartas de legitimação e na atribuição do foral de 1514 no reinado de D. Manuel I (1495-1521) . Este último – o foral - constituiu até à promulgação do Decreto de 24 de outubro de 1855, data da extinção de 76 concelhos – de 360 em 1854 passam para 284 em 1855 - como o mais importante e fundamental documento de compreensão da categoria do concelho e da economia predominante.
Durante este período Loriga aparece-nos também incluída em outros registos com destaque, a partir de 1527, em rubricas sobre a evolução da população. Se nesse ano se contabilizavam 78 fogos, em 1755 atingia 158 fogos com um total de 400 habitantes para em 1862 o número de fogos ser de 448 e uma população de 1702 habitantes para atingir o seu valor máximo em 1950 com uma população de 2981 habitantes, sendo 1569 mulheres e 1412 homens.
Desde a baixa idade média que a economia de Loriga assentava numa agricultura rudimentar, na pastorícia e na cultura da castanha para, nos primeiros anos de 1500, passar a ser um importante centro de tratamento e comercialização de panos e lã. A cultura do milho grosso em socalcos e a indústria têxtil chegam mais tarde, durante os séculos XVIII e meados do século XIX, respetivamente.
Assim , entre o ano de 1516 e 1800, temos:

- Por carta de 25/11/1516, vemos Pedro de Gouveia, no cargo de escrivão das sisas dos panos de Loriga, Alvoco da Serra e Vila Cova.
- Por carta de 19/06/1536 vemos Sebastião de Figueiredo, proprietário dos ofícios de tabelião do público e judicial e de escrivão dos órfãos de Loriga e Alvoco da Serra. Por carta de 04/12/1538, foi nomeado escrivão da câmara e almotaçaria das mesmas vilas.
- Por carta de 27/5/1562, vemos o seu filho Henrique de Figueiredo, suceder-lhe no cargo de proprietário do ofício de escrivão das sisas dos panos de Loriga e Alvoco da Serra. Renunciou no ano de 1577.
- Pedro Mendes, sucede-lhe em 1577, renunciando em 22/06/1609. Morre em Loriga em 20/11/1633 onde eram dos melhores e mais honrados da dita vila.
- Sucedeu-lhe Maria de Figueiredo que casou com Gaspar Fernandes o Velho que foi proprietário do mesmo ofício por renúncia de Pedro Mendes.
- Sucedeu-lhe no cargo António de Figueiredo o Velho, que casou com Maria da Fonseca natural de Loriga onde faleceu em 26/09/1698 e viveram. Eram gente boa e da principal da vila, que vivia de sua fazenda e trato de lã.
- Sucedeu-lhe no cargo seu filho António Figueiredo o Moço, batizado em 22/09/1649 e casado em Loriga em 08/02/1679 com Inês Cardoso natural de Loriga filha de Manuel Cardoso natural de Soito da Ruiva, freguesia de Pomares e sua mulher Maria Cristóvão natural de Loriga, referidos como gente boa e da principal da vila que vivia de sua fazenda e trato de lã.
- Sucedeu-lhe o seu filho Manuel de Figueiredo, referido como membro da Irmandade das Almas de Loriga. Casou em 17/10/1720 com Josefina Pinto falecida em Loriga e com testamento de 24/04/1758 filha de Francisco Pinto e Ana Lopes.
- Depois desta data vemos no cargo Pedro de Figueiredo, filho de Gaspar Fernandes o Velho, batizado em Loriga em 05/06/1624 e casado em Loriga em 05/10/1653 com Maria Mendes, batizada em Loriga 28/12/1635, filha de Francisco Mendes.
- Sucedeu-lhe seu filho Domingos de Figueiredo, batizado em 03/02/1658 e casado duas vezes: a 1.ª com Catarina Magro de Vila Cova à Coelheira e a 2.ª com Sebastiana Nunes.
- Sucedeu-lhe Domingos de Figueiredo, que casou com Teresa Tomás filha de José Nogueira e Águeda João que viveram em Sandomil.
- Sucedeu-lhe Miguel de Figueiredo da Fonseca, filho de António de Figueiredo o Velho e de sua mulher Maria da Fonseca, batizado em Loriga em 29/09/1657 e casado em São Romão em 07/02/1701 com Maria Mendes de Abreu, aí batizada em 07/09/1681, filha de Simão Duarte e de sua mulher Luísa Mendes.
- Sucedeu-lhe Manuel Mendes de Figueiredo, batizado em setembro de 1721 e tabelião em Loriga e familiar do Santo Ofício em dezembro de 1773. Vivia do contrato de lãs e panos, tendo de suas fazendas, que se reputam de 4.000 cruzados o rendimento de 200.000 reis. Casou em Sameice a 06/02/1765 com Maria Joaquina da Cunha e Abreu, aí batizada em 04/04/1734, filha do capitão Gabriel da Cunha Lobo de Abreu e sua mulher Brígida de São Bernardo de Figueiredo.
- Sucedeu-lhe Crisóstoma Delfina do Patrocínio e Cunha nascida a 20/03/1776 e casou em Oliveira do Hospital a 13/01/1809 com José Mendes de Abrantes nascido em Gavinhos de Cima, filho de Agostinho Mendes e sua mulher Maria Josefa.
- Sucedeu-lhe João de Figueiredo, filho de António de Figueiredo e sua mulher Maria da Fonseca. Casou em Loriga a 17/09/1697 com Maria Mendes, aí batizada a 13/04/1677, filha de Manuel João, aí batizado a 25/03/1638, sendo contratador de panos de lã, e de sua mulher Maria Mendes já viúva de Francisco Antunes, casados em Loriga a 06/08/1673, neta materna de Gaspar Fernandes o Novo e de Maria Lopes. Viveram em Loriga onde eram mercadores de panos.
- Sucedeu-lhe João de Figueiredo, batizado a 17/01/1702, contratador de panos, casado em Sandomil a 20/10/1738 com Engrácia Luísa de Moura Castanheira, nascida em Carragosela e batizada em Espariz a 11/0/1712 que fora viver para Sandomil na companhia de um tio, António Vieira, filha de Manuel Rodrigues Saraiva e sua mulher Mariana de Moura.
- Sucedeu-lhe o Dr. João de Figueiredo de Moura, nascido a 10/08/1750, formado e graduado em Cânones entre 1762 e 1768. Cavaleiro da Ordem de Cristo, desembargador da Relação no Rio de Janeiro, Provedor da Fazenda, Desembargador da Casa da Suplicação por carta de 10/12/1827. Casou na capela da Senhora da Ponte em Sandomil com Ana Joaquina de Magalhães e Abreu Castelo-Branco em 28/01/1782, nascida em Sandomil em 09/09/1758 filha de João Félix de Abranches e sua mulher Teodora Angélica de Magalhães de Abreu Castelo-Branco.
- Sucedeu-lhe Maria de Figueiredo da Fonseca, filha de António Figueiredo e sua mulher Maria da Fonseca, batizada em Loriga a 07/11/1663 e casada em Loriga a 13/11/1699 com Paulo de Gouveia, também batizado em Loriga a 22/01/1657, sargento-mor de Loriga, Alvoco da Serra e Vila Pouca, já viúvo de Paula Mendes Castelo-Branco.
- Sucedeu-lhe Paula da Fonseca, batizada a 08/07/1700 e casada em Loriga a 26/04/1731 com João de Brito, aí batizado a 11/09/1710, filho de Manuel João, aí batizado a 18/05/1681 e sua mulher Catarina de Brito, aí batizada a 20/01/1678 onde casaram a 15/06/1706. Viveram em Loriga onde eram dos principais da mesma vila.
- Sucedeu-lhe João de Brito, batizado a 30/05/1736, casou com sua prima Águeda Mendes Francisca, aí batizada a 28/05/1739, filha de Manuel Francisco Bordalo e sua mulher Maria Mendes de Figueiredo.
- Sucedeu-lhe Maria Teresa, casada com António José Mendes de Brito, nascido em Loriga a 03/04/1756, monteiro-mor da mesma vila por carta de 31/08/1791, filho de José de Brito e sua mulher Luísa Mendes. Viveram em Loriga.
- Sucedeu-lhe Luísa Maria do Carmo Mendes, nascida a 19/05/1794 e casada com José Luís Amaro de Castro, filho de Manuel Luís Amaro e sua mulher Catarina Luís.
- Sucedeu-lhe Maria Benedita Luís de Castro, nascida a 01/04/1824 e casada com seu primo 2.º Plácido Luís de Brito.
- Sucedeu-lhe Ana Mendes, filha de Pedro de Figueiredo e sua mulher Maria Mendes, natural de Loriga, onde casou a 03/10/1709 com Manuel Francisco Bordalo, daí natural e já viúvo, com geração, de Madalena de Brito, filho de António Francisco Bordalo e sua mulher Águeda Fernandes. Viveram em Loriga.
- Sucedeu-lhe António Francisco Bordalo, batizado a 10/06/1714 e casado em Alvoco da Serra a 11/10/1738 com Catarina Luís, daí natural, filha de Manuel Luís e sua mulher Ana Fernandes. Viveram em Loriga.
- Sucedeu-lhe Catarina Luís, nascida a 24/04/1747, casada com Manuel Luís Amaro, natural de Loriga e nascido a 16/04/1744, filho de Manuel Luís Amaro, aí batizado a 08/07/1712 e sua mulher Maria Josefa Galvão, aí batizada a 10/06/1714 e aí casados em 15/06/1741. Viveram em Loriga.

Da revolução industrial aos nossos dias

Com o aparecimento do fenómeno industrial em Inglaterra no ocaso – última década - do século XVIII e a sua expansão pela europa ocidental incrementada pelo ideário da revolução liberal de 1820 (perpetuada pelo cruzeiro na carreira), Loriga conheceu a partir de 1856 e 1862 - data da criação das primeiras fábricas - a da Fonte dos Amores e a da Fândega fundadas por Manuel Mendes Freire e José Marques Guimarães respetivamente. Com esta fundação das fábricas em Loriga, consumam-se e materializam-se, um passado manufatureiro tradicional surgido no século XVII data da criação da primeira fábrica de panos na Covilhã. É comummente aceitar esta ligação à Covilhã, pelo facto de em Loriga, o gado ser muito abundante, coexistirem muitos vendedores de lã, se situar entre duas ribeiras com ótimas condições de produção de energia, ter um quotidiano artesanal ligado ao têxtil e, mais tarde, o retorno de emigrantes enriquecidos no Brasil (hoje recordados pelos três fontanários existentes de 1905-1907, a capela de 1884 e o coreto em ferro forjado de 1905 de Nª Sª da Guia, padroeira dos emigrantes).

O ímpeto pelo têxtil possibilitaria ainda a criação de mais unidades: a fábrica do Regato, em 1869; em 1938 a Pina, Nunes & Cª; em 2000 a sociedade Pinto-Lucas e agora Cabalhanas; em 1872 a fábrica das Tapadas; em 1899 a fábrica Leitão & Irmãos, Cª; em 1967 a Lorimalhas; em 1905 a fábrica Nova para em 1920 passar a sociedade Moura Cabral & Cª; em 1929 a fábrica do Pomar da firma Nunes & Brito; em 1950 a fábrica das Lamas passando em 1980 a denominar-se Metalúrgica Vaz Leal - unidade de metalurgia; em 1878 a fábrica da Redondinha mais tarde denominada de Manuel Carvalho e de Jomabril.

A religiosidade das gentes de Loriga foi sempre notória, suportada na sua igreja matriz cujo orago é Santa Maria Maior, nas capelas de S. Sebastião, Nª Sª do Carmo e Nª Sª da Anunciada, bem como numa fé inabalável colocada nas tradições da sua Irmandade do Santíssimo Sacramento (1885), na Ementa das Almas durante o período da Quaresma e nas várias procissões realizadas durante o ano com destaque para as festas religiosas e romarias ocorridas no segundo domingo do mês de junho (Santo António); no último domingo de julho (São Sebastião); no primeiro domingo de agosto (Nossa Senhora da Guia) e no segundo domingo de agosto no lugar do Fontão (Nossa Senhora da Ajuda).
Na música e no desporto destacam-se a Sociedade Recreativa e Musical Loriguense (1 de julho de 1906) e o Grupo Desportivo Loriguense (8 de abril de 1934).

De um passado exuberante norteado pelos lanifícios, Loriga volta a apostar no seu território, nas suas gentes, na sua memória, nas suas tradições e no seu potencial paisagístico, numa perspetiva de se revalorizar e tornar sustentável a sua economia assente num turismo rural e nos novos paradigmas decorrentes da revitalização da praia fluvial no verão, da neve no inverno e nas tradições em outras datas.



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