Loriga é logo ali

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Autoria | José Lages Caçapo

Criado em | 27 Jan 2017 00:00
Publicado em | https://goo.gl/IZa9OU

Esta crónica aborda episódios da vida de:

José Lages Caçapo

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Entardecia entre chuva e sol. Tudo normal na corrente do Tejo ao lado de mim.

Estava rondando uma neblina fria e húmida e entrei num centro que dizem que era do Vasco da Gama, mas não acredito em tudo o que me dizem. Sinto mais verdadeiras as Tágides que submergem no rio, sofridas dos seus encantos quando bóiam.

Peguei num carrinho de um cavalo e deixei-me andar nos labirintos dos corredores e devagar, quando queria fazer uma ligeira ultrapassagem, deparou-se um carrinho de rodas com uma senhora que me interpelou deste modo:

- Tu és o Tó Caçapo.
- Não, sou Zeca Caçapo.
- Sabes, eu sou a Lourdes Pereira.

Não a reconheci de imediato. Posteriormente lembrei-lhe que conhecia toda a sua família, que brinquei com os seus irmãos (alguns já partiram) junto à cabine que por vezes a carga disparava e tudo ficava sem luz (por isso todos se chamavam da Luz). O seu pai é que normalizava as coisas da cabine. Já me esquecia que as brincadeiras eram de policias e ladrões, risca, eixo ribaldeixo, pau de bico, aro com agancha.

Via-a com um brilho nos olhos, chorou, emocionei-me e já passaram mais de cinquenta anos. Num beijo despedi-me e compreendi que qualquer amigo, mesmo sentado, pode aceitar uma saudade de pé. Boa gente da nossa Terra, essa Loriga de frio e de calor, recebendo a neve da Serra e a maresia do Mar. Vale a pena estar vivo. Em qualquer lado há alguém de nós, quando Loriga é logo ali.

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