Viagem para a França

Autoria | José da Silva Pinto

Criado em |
Publicado em | 25 Jan 2017

Esta crónica aborda episódios da vida de:

José da Silva Pinto

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Viagem para a França

No dia 17 de fevereiro de 1968 recebi um contrato de trabalho da França.

No dia 18 de fevereiro 1968, fui à Câmara Municipal de Loures para tratar dos papéis de Emigração Portuguesa e no dia 4 de março recebi um aviso da câmara dizendo que o meu pedido de emigrar tinha sido indeferido ou refusado pela Junta de Emigração.
Logo na mesma semana fui a Lisboa ter com o Sr.Manuel dos Passos na rua Coelho da Rocha, 91 B em Campo d' Ourique, que me foi indicado pelo meu primo José que me acompanhou assim como o meu cunhado Beja; pessoa influente talvez (por ter o café) com alguns funcionários da emigração,e que, com os truques que ele e os funcionários da emigração faziam, tratavam dos papéis o mais rápido possível.
Eu, convencido de que seria também bem recebido fui lá e ele não pôs obstáculo algum, dizendo que tudo se arranjava, o que era preciso era entrar com algum dinheiro para as coisas correrem depressa, primeiro começou por dizer que alguns que tinham por lá passado tinham dado 2000 escudos de entrada, como a minha vontade de emigrar era muita e tinha já gasto 350 escudos em certidões, gorjetas e viagens eu caí na esparrela de lhe dar 500 escudos, a conta para ele tratar dos papéis e depois lhe daria mais à medida que os papéis avançavam; continuei lá ir todos domingos a saber do andamento dos papéis. O aldrabão prometia-me confiança que tudo se arranjava mas que o funcionário com quem ele tratava não estava e outras vezes dizia que estava no Algarve ou na Covilhã a ver o jogo da bola e que lá ficou 15 dias por a mulher estar doente.
Eu, a perceber que estava a ser intrigado fui à câmara de Loures inteirar-me da verdade porque era que não podia emigrar e lá então mostraram-me o ofício da Emigração onde dizia que não podia emigrar devido a ser um operário com a profissão especializada, voltei a Lisboa ter outra vez com o aldrabão Manuel dos Passos e disse-lhe o que me disseram na Câmara Municipal e ele novamente a dar-me confiança que tratava dos papéis e nesta altura ameacei-o com a polícia e caso não me desse o dinheiro que podia passar por consequências graves, ele novamente a dizer que tratava da documentação quando se avistasse com o funcionário me mandava o resultado, esperei mais uma semana e não recebi resultado algum.
Como a empresa francesa que me mandou o contrato de trabalho mandou uma carta a exigir que tinha nesta altura uma grande encomenda e que precisava de nós, tentei tratar as coisas d'outra maneira.

No dia 24 de março de 1968 fomos ter com o padre Prata a Lisboa, se ele podia fazer alguma coisa por nós, visto conhecer-nos bem, ele então passou-nos uma carta para entregarmos ao pároco de Loures para intervir junto da Sra Dona Rosa Marques Farinha, 1° oficial na secretaria da Câmara Municipal de Loures, o pároco de Loures enviou-nos para o pároco de São João da Talha ou Unhos, era de Caifás para Barrabás e nada feito, fui então ter pessoalmente com a Sr Rosa na secretaria da câmara e ela disse-me que nada podia arranjar visto que o pedido do passaporte nos tinha sido refusado pela Emigração. Fiquei completamente desiludido.
Entretanto fomos ao ofício de emigração francesa a Lisboa e lá passámos à visita medical onde ficámos aprovados e disseram-nos que pela parte da emigração francesa estávamos em ordem e que podíamos emigrar.

Fomos ter então com o Sr Abílio Macedo Pina que conhecia bem as fronteiras visto ele mais a família vieram para França a pé, tudo então foi discutido e ele passou-nos o plano para que o filho nos acompanha-se para melhor podermos passar nas fronteiras.
No dia 20 de abril de 1968 saímos de casa e atravessamos o bairro da Sacor e Trefaria para que o pessoal do Manuel Dinis não nos visse e apanhámos o comboio em Sacavém às 8h e 30mn com destino a Guarda, mas para apanharmos o rápido tivemos que sair em Vilar Franca, aqui o rápido não parou e tivemos que esperar até às 11h15, hora em que apanhámos o trama da Beira baixa para a Guarda e chegámos aqui às 20 horas, aqui apanhámos um táxi para Vilar Formoso e às 22 horas estávamos na fronteira, depois da atravessarmos um riacho, estivemos duas horas escondidos na seara do centeio porque os carabineiros deram conta de nós com os projectores, nesta altura tremíamos como varas verdes, não pelo frio apesar de estar fresco, mas pelo medo; logo que os carabineiros regressaram ao quartel para fazer a rendição, nós fizemos a fuga e às 24 h já estávamos em Fontes de Oñoro a comer uma sandes num restaurante, aqui pedimos dormida mas o proprietário do restaurante não aceitou visto não termos passaporte e que não queria passar por problemas e aconselhou-nos para não irmos à estação dos caminhos de ferro porque era muito frequentada pela P.I.D.E.

Saímos daqui e seguimos a pé 14 km para uma terra próxima chamada … não me lembra o nome, chegamos aqui eram 6 horas da manhã de passarmos pelo sono cerca de 1 hora na beira da estrada, o frio era intenso, tomámos o café em casa dum espanhol que o filho do Abílio conhecia e fomos com ele à Guarda Civil para nos passar um passe para nós atravessarmos a Espanha sem perigo, como a negaram, seguimos de táxi para S.Estevão, na Guarda Civil disseram-nos para nos desenrascarmos como podermos, então almoçamos em S.Estevão e às 20 horas tomámos o comboio para Irun onde chegamos no dia 22 de abril de 1968 pela 6 horas da manhã, tomamos o café e iniciamos a travessia da serra para alcançarmos o rio, o Beja fez a travessia do rio a nado onde perdeu a gabardina, levava muita água, como eu e o rapaz do Abílio não sabíamos nadar não atravessámos por causa da corrente. Viemos pela estrada marginal onde passámos em frente do quartel dos carabineiros e encontramos-nos com dois carabineiros, depois de nos interrogarem sobre a travessia da serra porque nos viram e contaram que éramos três e ali só viam dois, eu contei-lhes que o outro tinha atravessado o rio a nado, eles lá se convenceram, depois de nos dizerem que antes prendiam os portugueses que eram apanhados sem passaporte e tinham recebido ordens de Franco que não prendessem mais portugueses que iam com destino à França, antes Salazar pagava a Franco 500 escudos por cada português que era preso em Espanha, como o governo português deixou de pagar então Franco já não prendia ninguém, isto foi o que nos contaram os carabineiros, mandaram-nos seguir para Irun a aqui então tratamos do passe com o chofer do táxi mas surgiu-se outro problema com o rapaz por ter só 15 anos e os passes só os passavam a partir de 16 anos, então o chofer do táxi já com experiência profissional traficou a data de nascimento da cédula pessoal de nascimento do rapaz e às 19 h e 30 mn chagámos a Handaye, como não trazíamos os documentos necessários, tivemos de permanecer lá 8 dias na sala de espera na gare à espera que o Abílio Pina chegasse com os nossos contratos de trabalho e por isso lhe pagámos a viagem de ida e volta Portugal e França, dormíamos no departamento da Cruz Vermelha e pagávamos um franco por noite cada um e comer era como calhava.

Tratámos depois da documentação necessária no ofício de Imigração francesa, deram-nos os bilhetes de comboio de Handaye a Elbeuf e no dia 29 de abril de 1968 partimos para Paris onde chegámos no dia seguinte pelas 6 horas à gare de Austerlitz e daqui apanhámos o autocarro para a gare de St Lazare, partimos daqui pelas 7 horas e chegámos à Elbeuf às 11 horas do dia 30 de abril, pegámos o trabalho no dia dois de maio de 1968, trabalhámos alguns dias e em seguida foi a grande greve geral de Maio de 1968.

Trabalhando na empresa Gasse Frères & Canthelou a Elbeuf como tecelão, a greve acabada e todo mundo ao trabalho, chegaram-se as férias no mês de Agosto mas como eu estava cá apenas três meses, 3 semanas de greve e não tinha passaporte não pôde partir a Portugal ver a família, então aproveitei trabalhar a dar serventia ao pedreiro da fábrica a fazer uns biscatos e foi o ano da minha vida que não tive férias.
Nesta empresa trabalhei pouco tempo porque no mês de setembro de 1969 fechou por falta de estruturas pois as máquinas eram todas velhas e pouco produtivas e apesar das manifestações e greves que se fizeram.
Como tinha lido um anúncio no Jornal d'Elbeuf a pedir um afinador de teares em Gravigni, perto de Evreux, eu fui lá de ciclomotor, mas nada resultou porque davam-me pouco de salário e também estava em via de fechar, foi quando então fui trabalhar para a empresa Blin & Blin em Elbeuf como afinador de teares em Outubro de 1969.

Em Setembro de 1968 morre Salazar e quem sucedeu foi Marcelo Caetano, este, no mês de Dezembro dá uma amnistia a todos os emigrantes que não tivessem sido desertores do serviço militar ou que não tivessem penas de prisão por motivos políticos para irem a Portugal fazer o passaporte de emigrante, eu aproveitei esta oportunidade de passar o Natal com a família e fazer o passaporte.

Quando fui trabalhar par o chez Blin fiz logo o pedido de inscrição para um HLM (* Habitação de baixa renda), dentro de pouco tempo a sociedade dos HLM me escreveram a dizer que me atribuíram enfim um apartamento no Puchot (*nome do bairro), entretanto fiz todo necessário para mandar vir a família, carta de chamada, demanda (*pedido) na Prefeitura etc… Entretanto a minha família foi chamada ao ofício de Imigração francesa em Lisboa e que tudo estava em ordem para poder entrar em França, simplesmente não pôde embarcar porque o governo de Marcelo Caetano refusou o passaporte, foi mais uma desilusão e uma batalha para fazer vir a família apesar de eu ter escrito ao presidente da Junta da Emigração; em agosto de 1970 fui passar as férias a Portugal com a família e nesta altura então tratei dum passaporte de turista para a minha mulher e filhos numa agência de viagens em Lisboa, ficou mais caro porque tive de pagar o passaporte e viagens enquanto pela emigração o transporte é gratuito ou seja pago pela imigração francesa.
Chegámos todos enfim a Elbeuf no fim do mês de Agosto de 1970 e tivemos de nos acomodar num quarto que tinha no 51, Cours Carnot a Elbeuf que era do chez Canthelou (*empresa) até ao fim de Setembro e no primeiro de Outubro fomos viver no Puchot num F4 (* T3) dos HLM.
No mês de Outubro justamente no dia 1 em 1970 minha mulher foi trabalhar para as bobinadeiras no Blin et Blin e eu contente que as coisas agora estavam a correr pelo melhor visto que os filhos também já frequentavam a escola, surgiu outro contratempo em Novembro com a minha mulher doente com uma depressão nervosa com certeza trazida de Portugal, esteve hospitalizada quinze dias e no fim do ano já estava restabelecida felizmente.
Trabalhamos os dois avincadamente no chez Blin eu como afinador de teares e minha mulher na bobinadeiras e depois como tecedeira, mas como as coisas não corriam bem entre a direção da fábrica e as finanças resolveram fechá-la em Julho de 1975, foi mais uma batalha de sobrevivência porque estávamos os dois desempregados, como o nosso futuro estava em França indeciso e comprometido, quando fomos de férias em Agosto compramos com as economias que tínhamos um apartamento em São João da Talha. Ainda fui ver uma fábrica em Reims para lá ir trabalhar como afinador mas davam-me pouco de ordenado.

Em Novembro 1975 fui fazer um estágio de reconversão como ajustador mecânico de oito meses e meio no Madrillet (* Centro de formação proficional) em St Etienne du Rouvray que terminou em 14 de julho de 1976.
As coisas começaram a correr um bocado melhor porque no fim do estágio entrei para a RNUR (*empresa Renault) no dia 5 de Outubro de 1976, minha mulher continuou em chômage (*desemprego) e em 4 de Outubro de 1976 foi trabalhar num fábrica de confeções e que esta também fechou no dia 2 de Julho de1977, a firma chamava-se Société de Fabrication et de Façonnage, 25-27 rue des Traites a Elbeuf, foi outra vez para a chômage (*desemprego) e no dia 2 de Maio de 1978 foir trabalhar para a AMCA (*empresa) e mais tarde Autoliv (*empresa) e que ainda continua não se sabe até quando.

Em 1988 como a RNUR propõe a pré-retraite(*pré-reforma) ou F.N.E. a todos aqueles que têm 55 anos, eu aceitei onde me encontro sem nada fazer a ganhar 65 % do ordenado mensal bruto.

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