Quando o coveiro fechou o povo no cemitério

Autoria | Vítor Moura

Criado em | 01 Jan 2003 00:00
Publicado em | http://goo.gl/oO6Dwn

Esta crónica aborda episódios da vida de:

Carlos Moura Santos

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Carlos Moura Santos (1947-2013) foi um loriguense mais conhecido por "Barbas" devido à farta barba que usava. Foi funcionário da Câmara Municipal de Seia. Ao serviço da Junta de Freguesia de Loriga, entre outras tarefas, exercia as funções de coveiro na sua terra.

Com o anoitecer mais cedo na altura do Inverno, o Carlos Moura Santos, nas suas funções de coveiro, começou a ter uma certa impaciência e alguma irritação pela marcação tardia da hora dos funerais. Isso obrigava-o a sair do cemitério já pela noite cerrada depois de todo o trabalho feito na nobre função de enterrar o defunto. Sobre esse problema chegou mesmo a chamar a atenção ao senhor Presidente da Junta e do Pároco local. Essa sua reclamação parecia não ser levada a sério e o pároco lá ia marcando os funerais para uma hora tardia, quase ao terminar a claridade do dia. O Carlos "Barbas" lá ia manifestando o seu desagrado e muitas vezes chegava mesmo a dizer no seu círculo de amigos "que algum dia fazia das suas".

Até que um dia planeou deixar claro o seu desagrado. Era um dia de Outono já muito perto do começo do Inverno. O funeral lá chegou ao cemitério e o Carlos "Barbas, postado como sempre à entrada resolveu fazer algo diferente. Após a entrada do último acompanhante, fechou o portão à chave e foi com calma até ao féretro, junto do local onde o pároco iria proferir as últimas leituras.

Depois da cerimónia, os acompanhantes começam a dirigirem-se para a saída mas depararam-se com o portão fechado. O Carlos "Barbas" lá continuou calmamente nas suas funções de fazer descer o caixão à cova e lançar a terra para cobri-lo. Gerou-se então um burburinho e mesmo até alguns protestos e exaltação. O Carlos continuou o seu trabalho como se não fosse nada com ele, indiferente aos protestos cada vez mais exaltados. Aconteceu assim em pleno cemitério de Loriga um episódio do qual não havia memória nem se imaginava que viesse um dia a acontecer.

Já com o serviço quase concluído, o Carlos lá desabafou e disse o que tinha a dizer ao sacerdote, afirmando mesmo que voltaria a fazer o mesmo se fossem marcados horários semelhantes. Depois, foi com a mesma calma abrir o portão. O que é certo é que isso foi "remédio santo". A partir de então os horários dos funerais passaram a ser marcados para um horário muito mais cedo.

Este episódio rapidamente passou a ser tema de divertimento e de risadas. Chegou mesmo à imprensa escrita a nível nacional, com os jornais a darem relevo à notícia. Ficou assim na memória o dia em que "o coveiro fechou as pessoas no cemitério". Este episódio ainda hoje se recorda, principalmente quando os loriguenses, em convívios e encontros ocasionais, recordam a sua terra, a sua gente e as suas memórias.

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