Cancioneiro da Vila de Loriga
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"Cancioneiro da Vila de Loriga" é uma obra da autoria dos loriguenses António e Sérgio Brito. O livro reúne 173 cantigas e cânticos em 263 páginas, recolhidos através da tradição oral, na vila de Loriga.

Autoria e fontes consultadas

Os autores, António Luís de Brito e seu filho, Prof. Sérgio Paulo Ribeiro de Brito, ambos com provas dadas em muitos anos de atividade musical, compilaram estas cantigas, escrevendo-as na sua forma mais genuína tal como foram transmitidas pelas fontes consultadas. Essas fontes foram pessoas que guardam no mais recôndito das suas memórias as cantigas que lhes foram transmitidas pelos seus pais. Entre eles contam-se os loriguenses António Luís Amaro e Maria Irene Gonçalves, ambos na casa dos 80 anos, bem como Adélia Alves de Jesus (Mourita) e Fernando Alves Pereira (Requinta). Incluem-se ainda as recolhas de António Ascensão, que alimentaram os grupos de música tradicional, Amanhã, Novo Horizonte, Malhapão e Eira da Pedra. O Enquadramento Histórico é da autoria do Dr. Augusto Moura Brito, loriguense, com créditos firmados nessa área. O prefácio é da autoria do Doutor António Duarte Amaro, que traça o perfil sociológico de Loriga, campo das recolhas aqui compiladas. A capa é da autoria do Dr. José Gonçalves Mendes.

O Enquadramento Etnográfico e a Contextualização das Recolhas é da autoria de Joaquim Pinto Gonçalves, tendo também contribuído com a recolha e interpretação de algumas das cantigas. Inclui-se abaixo esse texto assinado por Joaquim Pinto Gonçalves e que faz parte do Cancioneiro.

Enquadramento etnográfico e a contextualização das recolhas

A Tradição Oral e a riqueza musical de Loriga

Todas as cantigas que constam do “Cancioneiro da Vila de Loriga” foram recolhidas em Loriga e passaram de geração em geração, através da única forma que o povo tinha para as transmitir: de pais para filhos, de avós para netos, em suma, por aquilo que etnologicamente falando, se designa por Tradição Oral.

Este é o método mais simples de preservação do património cultural, em geral, e do musical, em particular. Tem, no entanto, um perigo, que pode também ser uma virtude. Nem sempre o que se passa oralmente é fidedigno, mas, por outro lado, vai evoluindo com as gerações que se vão apropriando deste património. O que é que os entendidos dizem sobre esta forma, curiosa, que o povo tem de transmitir a sua cultura?

Segundo Marcel Mauss (1993), “a música define-se como um fenómeno de transporte, um «passeio pelo maravilhoso mundo dos sons e dos acordes». O sentido musical aparece muito desigualmente distribuído, segundo as sociedades. Ritmos, melodias, polifonias, variam, em proporções consideráveis de uma sociedade para a outra e também no interior de uma mesma sociedade entre os sexos, as idades, as classes; música nobre e música vulgar, música militar, música sacra, música de cinema.”

Mais adiante o mesmo autor, referindo-se aos métodos de observação no estudo da cultura musical de uma sociedade afirma que ”estudar-se-ão primeiro os instrumentos. O instrumento, onde existe, é um ponto de suspensão e um ponto de apoio da música.” Afirma ainda que: ”os ritmos são variados, porque correspondem, talvez, a danças… uma dança mimada que comporta figuras variadas, mudando o ritmo com cada gesto do mimo .” Sobre os cantos de trabalho, refere que ”estes são simplesmente uma forma particular de canto… e… são muito frequentes, em particular, entre as mulheres .”

Quisemos trazer aqui estas referências para podermos situar as nossas vivências musicais num contexto etnográfico, já que a etnografia recorre às fontes existentes no terreno, para levar a cabo uma investigação credível.

Não podemos ignorar que, de toda a música que se foi fazendo ao longo do tempo, nós só conhecemos e estudamos uma parcela muito pequena, uma vez que a parcela provavelmente maior se perdeu na voragem do tempo. De facto, se pensarmos bem, não conhecemos a música dos Lusitanos, mas sabemos que eles celebravam as suas vitórias sobre os Romanos ao som de cânticos.

Da Idade Média, chegaram até nós os cânticos Litúrgicos Gregorianos, porque eram registados por escrito pelos frades, mas o povo dessa época decerto se divertia cantando e dançando nas suas ocasiões festivas. Chegaram até nós, também, as Cantigas de Amor e de Amigo dos Trovadores. Mas era a música da Corte, da Nobreza. E o Povo?

Como o povo não era letrado não podia escrever as suas cantigas. Assim, restava-lhes a oralidade como forma de passar as suas cantigas de geração em geração. É evidente que através desta forma as versões originais são mais facilmente deturpadas, mas este método não terá, apenas, aspectos negativos. Pelo contrário. As cantigas foram sendo adaptadas às épocas e, de certo modo, evoluindo com os homens e mulheres que as transmitiam.

Centrando-nos nos espécimes recolhidos e na especificidade desta terra de grande tradição musical, com uma filarmónica centenária, que, ao longo do seu século de existência se dedicou à musica um pouco mais erudita, mas com um património musical vastíssimo, que de âmbito religioso, quer profano. Não sabemos explicar muito bem, talvez porque ainda não nos demos a esse trabalho específico, qual a razão porque em Loriga a música é quase tão importante como o ar que se respira.

Vivemos a nossa infância em Loriga nos idos anos 60… Tempos difíceis, mas Loriga foi sempre terra de gente alegre. Quantas tertúlias não terão começado nas barbearias do Ti António Farias e do António Conde grandes amantes do Fado de Coimbra; na sapataria do Ti António Calçada, onde um número razoável de jovens aprenderam a tocar viola, Bandolim e outros cordofones; nalguns “balcões” quando as noites de verão eram aprazíveis, com o Ti Menano à guitarra ou o Ti Emídio Refina e a sua concertina e, tantos outros que a memória colectiva começa já a não recordar. Nos passeios noturnos de verão, ao longo da Estrada, havia sempre uma viola e uns quantos cantors a quebrar o silêncio da noite. E que belas vozes ecoavam pela noite loriguense!… Quantos bailes não começavam ao toque duma gaita-de- beiços, com o era o caso do meu avô paterno, Abílio Luis Amaro que animava os “Bailes e Contradanças”, no Terreiro do Fundo, no Cabeço, na Fonte do Vale ou no Vinhô?

Em Loriga, o povo manifestou sempre os seus dotes artísticos das mais diversas formas. Raro era o dia em que não se ouvia alguém cantar nos campos, acompanhando as variadas tarefas do cultivo do milho, do centeio, da batata ou simplesmente a cuidar de uma pequena horta. Havia cantigas apropriadas para todas as ocasiões. Quando chegavam as datas festivas, era ver os ranchos de moços e moças que se deslocavam a pé, sempre alegres, cantando as “loas” aos respectivos santos. Às vezes a viagem era bem longa!… Nove horas a pé para a Sra das Preces, na Srra do Açor, segundo os testemunhos de alguns participantes. Mas… nem isso esmorecia o entusiasmo, daquela gente que, após uma semana de trabalho árduo, só pensava em divertir- se, numa qualquer romaria das redondezas.

Para além disso havia a Banda Filarmónica! Ainda hoje quando nos deslocamos pela região raiana do Sabugal a Foz Côa, Almeida, Nave de Haver, Vilar Maior, Pêga… quando falamos em Loriga ouvimos referências elogiosas à Banda. O que mais marcava as gentes desta região da orla da serra, era o facto de a Banda de Loriga se desdobrar em grupos mais pequenos que animavam as tertúlias locais. Não havia mordomo, que não disputasse, um ou mais elementos desses grupos. Com eles a festa ia pela noite dentro! A chegada da banda, era sempre motivo de alegria. Quando chegava a Loriga, regressada de alguma festa ou romaria, ouviam-se os foguetes que as mordomias ofereciam, para que os músicos anunciassem a sua chegada a casa. O povo nunca faltava a este chamamento. Quando o autocarro parava na “carreira” já as pessoas se acotovelavam para melhor se posicionarem no sentido de se incorporar na “procissão” que seguia a banda até à sede.

As gentes desta terra respiravam música!…

Havia também o rancho folclórico, com todo o seu colorido, que por altura dos Santos Populares organizava as marchas. Na igreja, toda a gente cantava. Por vezes ouviam-se uns “pontapés na gramática” pois, quem não sabia ler (Era o país real!!!) apanhava a letra de ouvido e, nem sempre da forma mais correcta. Mas não se ouvia uma desafinação. As notas estavam todas no sítio certo!

Na Quaresma era a “Ementa das Almas”. Todos os Sábados, altas horas, éramos acordados, por aquelas vozes que vibravam no silêncio da noite. Nomes como o do Ti Zé Garcia, Fernando Gonçalves (Tripa) meu pai, o Zé Fernandes (Aleixo)e do Fernando Pereira (Requinta) (único ainda vivo desse grupo), por vezes acompanhados pelo clarinete do Augusto (Bife) ou do Mário (da Volta) e o trompete do Ti Augusto (Bucho), marcam uma época importante na preservação desta tradição. Às vezes até sentíamos arrepios!…

De vez em quando havia um Teatro. E não havia Teatro sem variedades! Ainda hoje trauteamos muitas das cantigas da “Revista”, cantadas nessas sessões de variedades, no Salão Paroquial, a que chamavam “Melodias de Sempre”.

De facto, as gentes daquela terra respiravam música!…

Havia ainda os “KARTS”, versão loriguense dos BEATLES. Mais tarde vieram os “FOCOS” do qual também fizemos parte e, que até há pouco tempo, ainda existiam. Quantos jovens não terão feito deste grupo a sua escola de música?

E as Festas da Vila?… Que pena terem acabado! Era uma semana de grande agitação. E as crianças, que nessa altura havia em quantidade, davam um colorido muito especial às festas. Animavam-se com os aviões no “Portugal”, os carrinhos de choque na “Fonte do Mouro”, as tendas e quiosques na “Carvallha” (ainda com a capela do Santo António) e o terraço do “Nunes & Brito” (Fábrica de Lanifícios situada na Carreira) era um palco privilegiado, pois era visto de toda a “Carreira”. Foram tempos que recordaremos sempre com saudade, mas foram tempos que deixaram marcas indeléveis, que nos acompanharão e influenciarão para o resto da vida.

Voltando às gentes da nossa terra e à sua predilecção pela música convém recordar que, não fora o testemunho passado por alguns dos mais idosos e muitas “cantigas de roda” muitas “loas” e “ribaldeiras” teriam sido perdidas para sempre. Vêm-nos à memória cantigas como a “Bonequinha” que ouvimos cantar de diversas maneiras, mas a que ficou mais viva foi a que ouvimos à tia Maria do Carmo, à tia Maria Emília e à tia Irene, com um contracanto interessantíssimo. Este arranjo, faria inveja a muitos orquestradores, mais entendidos em harmonia que esta gente simples do povo. Povo anónimo, que através da sua tradição oral, vai permitindo manter audíveis cantigas como a “Morena”, o “Maneio” “Adeus Terreiro do Fundo”, “Vai-te Embora António” e até o “Apita o Combóio” que tanto sucesso fez nos últimos anos, através do Grupo Zimbro, oriundo de Valezim e que trabalhou algumas das recolhas de António Ascensão. Todas elas fazem parte deste Cancioneiro, tal como outras, que não sendo originárias de Loriga, por lá se cantavam e permaneceram na memória das nossas fontes até aos nossos dias. Como terão chegado a Loriga algumas cantigas como, “Não quero que vás à monda”, uma cantiga alentejana, bem como outras, originárias de outras paragens?

É que, a tradição oral revela uma outra dimensão - a da criatividade do povo. Senão vejamos: Por ocasião da ceifa muitos beirões se deslocavam para o Alentejo ou para o Douro, durante a vindima, para engrossar a mão-de-obra escassa, atendendo ao volume de trabalho exigido. Era um trabalho sazonal. Os “ratinhos”, assim eram conhecidos, regressavam às origens no final da estação. Esta migração sazonal permitiu enriquecer substancialmente o património musical das suas regiões, uma vez que, os beirões levavam para o Alentejo as suas cantigas, que eram apreendidas e assimiladas pelos alentejanos e lá apreendiam e assimilavam as cantigas alentejanas que no regresso traziam para a sua região.

Um exemplo disto é a cantiga “Eu hei-de ir ao Alentejo”, recolhida por António Ascensão, em Loriga. Os primeiros dois versos: Eu hei-de ir ao Alentejo / Buscar um alentejana - são cantados com uma melodia dolente com um ritmo típico do Alentejo. Os dois últimos versos: Ai, ai, ai, pequenina e asadinha/ Ai, ai, ai , que saiba fazer a cama - são cantados com uma melodia mais alegre e com o ritmo de uma dança de roda típica das Beiras. Outra cantiga que consta do cancioneiro e que se pode ouvir no Douro, por ocasião das vindimas, com outra letra é, “Antoninho Olha a Rola”.

Curiosamente este fenómeno de miscigenação musical não tem sido muito explorado pelos etnomusicólogos que têm feito escola no nosso país. Tanto mais que a região da Beira Alta e também a Beira Litoral são, ainda, em grande parte desconhecidas do ponto de vista da música de tradição oral. Poucas cantigas têm sido editadas originárias da Beira Litoral.

A Beira Alta é sobretudo conhecida pela polifonia vocal da região de Lafões (Vouzela, São Pedro do Sul e Oliveira de Frades), registada por Armando Leça em finais dos anos 30 e Michel Giacometti nos anos 60/70. No entanto, a obra “Alegrias Populares” com inúmeras cantigas recolhidas pelo Padre Jaime Pereira, na região da Beira Serra é de extrema importância para se conhecer e compreender a tradição musical das gentes serranas.

Outro contributo importante, mas que não foi publicado, foram as recolhas de António Ascensão que gravou na origem e posteriormente escreveu, cerca de 200 cantigas que se cantavam na região. Foram essas recolhas, que alimentaram vários Grupos de Música Tradicional que proliferaram pela região nos anos 80 e que, por essa via, chegaram ao Cancioneiro. Destacamos os Grupos loriguenses “Amanhã” e “Novo Horizonte” e, mais tarde na ANALOR: “Malhapão”, “Arco-Íris” e “Eira da Pedra”.

Por outro lado, a diáspora loriguense, utilizou algumas destas cantigas para alimentar as suas tertúlias e convívios, como é o caso das colónias de Manaus, no Brasil, onde até existe um Centro Loriguense ou do Luxemburgo, com convívios periódicos aonde se canta Loriga e as suas cantigas. Também em Sacavém, onde, há muito, existe uma significativa concentração de loriguenses, existiu na década de 50 o Rancho Folclórico Loriguense, que se serviu das danças de roda trazidas de Loriga, para tornar as suas aprresentações mais originais. Fruto dessa concentração surge a ANALOR que tem, também, contribuido com os diversos grupos já citados para divulgar a música tradicional de Loriga. Salientamos o papel do loriguense Joaquim Melo, na dinamização do Rancho de Seia, do qual foi a verdadeira “alma” durante muitos anos, bem acompanhado por outros loriguenses que se mudaram para a sede do concelho, nomeadamente para trabalhar na FISEL, nos anos 60. Em Águeda, os autores deste cancioneiro, António Luís de Brito e o seu filho Sérgio, têm desenvolvido actividade musical de grande relevo, sem nunca perder de vista as suas origens como o prova esta obra, que agora se edita.

As cantigas recolhidas, embora apareçam ao longo do cancioneiro de uma forma aleatória, têm as características regionais que tradicionalmente se atribuem às cantigas populares. Temos cantigas de roda próprias para as danças, as cantigas de romaria que marcavam o ritmo dos ranchos de pessoas que se dirigiam aos locais de culto e, de certa forma, marcavam o ritmo da sua marcha, bem como os cantos de trabalho que acompanhavam as tarefas agrícolas e da pastorícia: Milho Verde, Fui aos Figos à Figueira, Malhada das Ovelhas

Em Loriga não se pode dizer que havia cantos de trabalho, como se encontram noutras regiões, como os “Aboios”, dos agricultures da Estremadura ou os “Leva-Leva” dos pescadores do Algarve. No entanto, a música e as cantigas, estavam sempre presentes nas courelas e malhadas dos “Socalcos de Loriga”, durante o trabalho de sachar, assentar, escanar o milho ou outra qualquer tarefa do amanho da terra ou da pastorícia. A Bonequinha, que ouvia às minhas tias por ocaisão do “escanar” do milho, é disso exemplo. Ou outras, como é o caso específico da mineração, de que é exemplo a cantiga Raparigas do Minério. Durante a II Grande Guerra existiam em Loriga empressas mineiras que exploravam o volfrâmio e o tungsténio, que era facultado às tropas aliadas, destinado ao esforço de guerra. Por isso a RAF - Royal Air Force, sobrevoava frequentemente a região da Serra da Estrela, muito rica nestes minerais, tendo aí caido um avião, em 22 de fevereiro de 1944. Logo o povo se apressou a fazer cantigas alusivas ao facto, que constam do Cancioneiro, em capítulo próprio. Aparecem registadas, também, as cantigas de romaria, como a que se dançava em Valezim e na Lapa dos Dinheiros, a caminho da Sra do Desterro, “É Aqui, Aqui,Aqui”. Destacamos, ainda a cantiga “Vamos Correndo ao Norte” cantada e bailada durante as bodas dos casamentos, numa verdadeira disputa entre homens e mulheres.

Em Loriga, como já referimos, era usual fazer os “Bailes e Contradanças”. Chamavam-lhe contradanças porque em tempos idos, não eram permitidas às mulheres certas liberdades, como as que hoje usufruem e então, para se poder dançar a pares, um dos homens fazia de mulher e assim se divertiam dançando e cantando. Esta prática revela que também na música, homens e mulheres desempenhavam papeis e funções diferentes, uma vez que nos campos se ouviam mais as vozes das mulheres.

As desgarradas em Loriga, que as havia, em quantidade em tempos idos, ora acompanhadas à concertina, à gaita de beiços, à guitarra e viola, ou simplesmente à viola, tinham como suporte musical a melodia do Fado Batido ou do Fado Corrido, como também lhe chamam e, em muitos casos, era também dançado.

Uma referência, ainda a cantigas mais recentes, como Loriga é a Suiça Portuguesa, gravada pelo Tó Zé Gomes Brito, ou o Cantar Loriga e o Hino da ANALOR, da autoria do José Manuel Moura Alves e, ainda o Hino da Praia Fluvial de Loriga da autoria do amigo de Loriga, Amadeu Diniz da Fonseca.

Estando a música popular intimamente ligada ao sentir do povo, a tradição abrange os três grandes temas funcionais que estão na base da nossa cultura musical tradicional: a dança e os folguedos, os cantos de trabalho e os cânticos religiosos. Daí que faça todo o sentido quando o povo diz: “A cantar se trabalha, a cantar se ora, a cantar se ama”.

A Música Religiosa e a sua apropriação pelo povo

Este Cancioneiro abre com uma primeira parte de cânticos de cariz religioso. No entanto, nem todos eles se destinavam ou eram cantados em cerimónias do culto nas igrejas. Cânticos como os dedicados a Nªa Srª da Conceição e outros cânticos marianos ou ao Sagrado Coração de Jesus, bem com o alguns natalícios, eram cantados na igreja em cerimónias do culto religioso. No entanto, há um conjunto de cânticos, genericamente designados por cânticos da Ementa das Almas, que, em certos períodos, foram até, como que proscritos pelas autoridades religiosas da vila. O certo é que, devido à grande fé e empenho de uns tantos, o ritual se vem mantendo, de acordo com a nossa investigação desde a reforma do cântico litúrgico, sob o pontificado do Papa Gregório Magno.

Há séculos que em Loriga se realiza este ritual da Ementa das Almas. Todos os anos, nas madrugadas de Domingo, durante a Quaresma, um grupo de "teimosos" se reúne, faça chuva ou neve, com nevoeiro ou sem ele, para "Aliviar as Almas"… como diziam os antigos. Este é um exemplo de como o povo se pode apropriar, de certos rituais que eram do clero e adaptá-los, de acordo com a sua religiosidade ou, melhor, de acordo com a sua espiritualidade. E as convicções foram sempre tão fortes que passaram de geração em geração, mantendo o carácter e a forma quase tão pura como na sua origem. A “Ementa das Almas” é, no fundo, uma versão popular da “Liturgia dos Mortos” da Igreja Católica. O certo é que, embora com dificuldade, em Loriga, esta tradição vai-se mantendo.

Todos os anos, nas madrugadas de sábado para domingo, durante a Quaresma, o silêncio da noite é quebrado pelo ecoar dos cânticos da “Amenta das Almas”, graças à boa vontade de uns tantos (não muitos) Loriguenses, que teimam em manter viva esta tradição. Durante cerca de duas horas, entre as quatro e as seis, desenrola-se este diálogo cantado, por vários homens que subindo aos pontos mais altos da vila, despertam o povo que dorme, para a recordação dos que já morreram. Aqui e ali, o diálogo é interrompido por uma badalada do sino da torre da Igreja, onde se encontra um dos participantes neste ritual, seguido de um período de silêncio - o necessário para que se reze um Pai nosso, uma Avé Maria… .

Apresentamos no Cancioneiro a melodia que suporta este ritual com o nome de Ementa das Almas, pois é o cântico principal deste ritual. Para além desta melodia, salientamos na tradição de Loriga “Os Martírios”, cantados Sexta Feira Santa. No final deste diálogo, o grupo junta-se no adro da Igreja e inicia-se uma outra fase deste Rito. A “arruada”. Esta é uma espécie de “Via Sacra” realizada pelo grupo de homens que canta a “ementa” e mais alguns que se lhes juntam, posteriormente, para aumentar o número de vozes e assim, melhor se fazerem ouvir pelos que não acordaram. Na arruada, cantam-se os “Passos” dando conta das várias etapas do caminho de Cristo até ao Calvário. Trata-se, como já dissemos de uma espécie de Via Sacra, cantada pelo grupo, no final da “Ementa”. Sexta Feira Santa, durante a arruada canta-se a “Mãe Dolorosa”, cântico que lembra as dores que Maria sentiu pela paixão e morte do seu Filho. Esta tradição mantém-se, independentemente das condições climatéricas. O período quaresmal, normalmente em Fevereiro e Março, é tempo de grandes nevões na região da Serra da Estrela. Mas, nem mesmo os nevões impedem que se cumpra a tradição.

Há alguns anos atrás, desenvolvemos uma investigação sobre a origem do ritual da “Ementa das Almas”. Esta tradição de Loriga, remonta, de acordo com o estudo por nós efectuado, aos tempos do Canto Gregoriano, por volta dos Séculos IX, X e XI. Tal conclusão assenta na construção “modal” de alguns dos cânticos do ritual, nomeadamente os “Martírios”, embora outros tenham a mesma origem.

Para aprofundar um pouco estes aspectos podem consultar o artigo que escrevi sobre este assunto que se encontra publicado neste Blog em:

http://trovanossa.blogspot.pt/2008/09/ementa-das-almas-em-loriga.html.

Gostava de salientar aqui a originalidade do nome deste ritual, pois a questão do nome não é uma questão menor. É que há muitas terras com rituais de Encomendação ou Amenta das Almas, como vulgarmente lhe chamam. No entanto, o nosso ritual difere da grande maioria, não só na forma, mas também na substância. E não somos só nós a dizê-lo. O grande etnomusicólogo Michel Giacometi, passou por Loriga e trabalhou com António Ascensão na recolha de música religiosa popular. Giacometi tabalhava, na altura, na recolha de espécimes para a sua "Antologia da Música Religiosa Popular Portuguesa", que deveria ser editada pela Valentim de Carvalho. Em contacto posterior escreveu a António Ascensão, dizendo que os espécimes recolhidos em Loriga eram, sem dúvida, dos mais interessantes que havia recolhido pelo país, pois, no capítulo das Encomendações das Almas, não havia nada que se lhe comparasse.

Este ritual de Loriga, não se compara com outros de diversas localidades, cujos nomes variam desde as Encomendações… Encomendas… Lamentas… Aumentas… Amentas… das Almas. É por isso que defendemos que a diferenciação do nome é, também, uma marca de originalidade que, em Loriga, passou de geração em geração por tradição oral. Em Loriga, desde crianças, habituámo-nos a ouvir falar da Ementa das Almas. Todos aqueles que cumpriam este ritual, a ele se referiam desta forma. No entanto, a partir de uma certa altura, começou a constar em Loriga que o termo correcto seria “Amenta” e não “Ementa”.

Pelas características que o ritual tem em Loriga; pelo facto de os praticantes mais antigos deste ritual assim o designarem; pelo significado que é atribuido ao termo Ementar, no Dicionário Etimológico (ver figura abaixo): "trazer à memória as ações boas e más de um sujeito; livros onde se registam as memórias, para que não haja esquecimento."

É precisamente esta a essência do ritual, não esquecer as almas dos nossos irmãos falecidos e recordar a todos que devem rezar por elas. Isto é. Ementar as Almas.

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Excerto de: VITERBO,, Joaquim de Santa Rosa de,, O.F.M., 1744-1822. Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, volume I, página 280.
http://purl.pt/13944/1/ - Biblioteca Nacional Digital

As Romarias dos Loriguenses e a Senhora da Guia

Nos idos anos 40/50, escrevia o Sr. Padre António Cabral Lages, Pároco de Loriga e Presidente da Junta Paroquial, uma espécie de Junta de Freguesia da actualidade, sobre a Festa da Nossa Senhora da Guia e a forma como o povo de Loriga a vivia:

"Os versos que se seguem, cantavam-nos os Romeiros, ainda não há muitos anos na Romaria da Nossa Senhora da Guia. Hoje, tudo passou, menos a Fé, da qual os Loriguenses se não envergonham, aqueles que levantaram aquele belo templo à Estrela dos Mares, que os protege nas suas viagens em busca da fortuna, do qual quiseram fazer um Santuário. Estes versos que durante perto de meio século foram entoados no Adro da Capela, ecoando pela Serra, são a história singela dos milagres da Virgem e contêm as preces inocentes de tanto coração bondoso."

Estando eu em minha casa
Sentada a uma janela
Deitando os olhos ao largo
Vi uma linda Capela

Vi uma linda Capela
Perguntei de quem seria
Um anjo me anunciou
Que era de Nossa Senhora da Guia

De Nossa Senhora da Guia
Pequenina, toda airosa
Vem gente de muito longe
Para ver tão linda rosa

Nossa Senhora da Guia
Dizei-me onde morais?
Moro para lá da Catraia
Por entre os pinheirais

Aquele povo ao ver a Imagem canta ainda com mais fervor:

Nossa Senhora da Guia
Ela lá em cima vem
Com seu menino ao colo
Seus cabelos ao desdém

Esta quadra diz-se também da Senhora do Espinheiro e do Desterro:

Nossa Senhora da Guia
Ela lá vem no andor
Com seu menino ao colo
Parece um resplendor

As trovas, num tom de infinita ternura e simplicidade, saem dos ranchos que andam á volta da Igreja, com o pensamento nos que mourejam longe, invocando Nossa Senhora, lembram o manto novo que lhe prometeram e a Virgem parece que sorri.

Nossa Senhora da Guia
Tens um manto a fazer
Cheio de estrelas brilhantes
Muito lindo há-de ser

A fama da Romaria chegou muito longe. A França, na Geografia popular é o país de que sabem o nome e que julgam mais longe e invocando a Protectora dos emigrantes rezam:

Nossa Senhora da Guia
Rosa Branca e Encarnada,
Até ao cimo da França,
Chega vossa nomeada

E perguntam algumas daquelas que prepararam o adro:

Nossa Senhora da Guia
Quem vos varreu o Terreiro?
Foram as meninas de Loriga,
Com um raminho de loureiro

A mesma pergunta fazem as Romeiras da Nossa Senhora da Cabeça. E como que querendo a paga do serviço do embelezamento do Largo, recordando Pais, Irmãos e Noivos que são por longes terras ou no mar pedem:

Nossa Senhora da Guia
És uma Estrela brilhante
Dá saúde aos Loriguenses,
Aos pobres emigrantes"

Percebe-se por este texto do Senhor Padre Lages e pela evocação das "Loas" - assim se chamavam os cantos do Romeiros - a grande devoção com que o povo de Loriga vivia esta festa secular. Tratando-se de uma terra que viu partir, desde há muitos anos, alguns dos seus filhos, percebe-se a importância desta Romaria no contexto das festividades da região. Sendo, na altura uma terra com muita indústria e bastante população, certamente aqui acorriam as gentes das terras vizinhas que assim se juntavam aos Romeiros locais e cantavam as "Loas". No entanto, esta é uma prática que começa com o início das festividades em finais do Século XIX, princípio do Século XX. Antes disso, as Romarias mais privilegiadas pelas gentes de Loriga, situavam-se nas redondezas, algumas delas a distâncias consideráveis, como a Sra. das Preces ou a Sra. do Colcorinho, bem como a Sra. do Montalto. Mais próximas, mas não menos consideradas, a Sra. do Desterro, em São Romão, a Sra. da Saúde em Valezim e a Sta. Eufémia em Sazes da Beira.

Para os agricultores de Loriga, a Senhora da Guia não assumia a importância que, por exemplo, tinha a Senhora das Preces ou a Senhora do Desterro. A sua fé levava-os a fazer promessas, como a que o meu avô paterno e a sua irmã Glória faziam à Senhora do Desterro, que os obrigava a deslocarem-se anualmente ao seu santuário e aí depositar o valor de um alqueire de milho, pelas graças concedidas às suas colheitas.

Por outro lado, numa sociedade fechada como era a loriguense, antes da abertura das estradas e da chegada dos meios de comunicação, as romarias eram como que o escape para extravasar a sua alegria e libertar os seus preconceitos, em locais onde, não sendo conhecidos, podiam dar largas à sua boa disposição sem constrangimentos de qualquer espécie. Com o declínio da agricultura, estas romarias foram perdendo importância e romeiros e, aos poucos, a festa da Nª Srª da Guia, foi-se assumindo como a grande romaria dos Loriguenses espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Hoje, é de facto a grande Festa de Loriga e o Cancioneiro contêm várias cantigas que o atestam. Destaca-se, no entanto o Hino a Nª Srª da Guia com o seu refrão, Ó padroeira amorosa que no dia da festa arranca lágrimas de alegria, de saudade, de tristeza e de toda uma amálgama de sentimentos com que o povo se expressa nestas ocasiões e nestes rituais.

Conclusão

Embora sendo um trabalho coletivo, este cancioneiro, é fruto do empenho e da dedicação de um filho de Loriga, António Luís de Brito, desde sempre ligado à música e do seu filho Sérgio Brito, que tem Loriga no coração, sentimento que lhe foi transmitido por seu pai e que, também ele respira música como a maioria dos loriguenses.

Esta não será certamente uma obra acabada, uma vez que a cultura e as tradições são fenómenos dinâmicos e em constante evolução, tal como os povos e as sociedades em que se inserem. No entanto, estou seguro de que aqui estará a essência do património musical de Loriga e, como tal, é uma obra que deve encher de orgulho Loriga e os loriguenses.



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