A indústria têxtil em Loriga

Caraterização inicial

Desde a baixa idade média que a economia de Loriga assentava numa agricultura rudimentar - o destaque para o centeio - na pastorícia e na cultura da castanha para, nos primeiros anos de 1500, passar a ser um importante centro de tratamento e comercialização de panos e lã. A cultura do milho grosso em socalcos e a indústria têxtil chegam mais tarde, durante os séculos XVIII e meados do século XIX, respetivamente.

Sabemos que, entre os anos de 1516 e 1800, Loriga tinha um papel importante na economia e na política local… Os cargos de escrivão das sisas dos panos, de tabelião do público e judicial e de escrivão dos órfãos, em concomitância com o viverem da sua fazenda e trato de lã, conferiram aos que os exerceram, um papel de serem os melhores e mais honrados da vila!

Com o aparecimento do fenómeno industrial em Inglaterra no ocaso – última década – do século XVIII e a sua expansão pela europa ocidental incrementada pelo ideário da revolução liberal de 1820, Loriga conheceu a partir de 1856 e 1862 – data da criação das primeiras fábricas – a da Fonte dos Amores e a da Fândega fundadas por Manuel Mendes Freire e José Marques Guimarães respetivamente. Com esta fundação das fábricas em Loriga, consuma-se e materializa-se, um passado manufatureiro tradicional surgido no século XVII data da criação da primeira fábrica de panos na Covilhã. É comummente aceitar esta ligação à Covilhã, pelo facto de em Loriga, o gado ser muito abundante, coexistirem muitos vendedores de lã, se situar entre duas ribeiras com ótimas condições de produção de energia, ter um quotidiano artesanal ligado ao têxtil e, mais tarde, o retorno de emigrantes enriquecidos no Brasil.

Porém, este fácies industrial têxtil da vila de Loriga referido no Inquérito industrial de 1881, onde podemos constatar a existência de 7 (sete) fábricas onde trabalhavam 151 homens e 29 mulheres - considerada a “Manchester do concelho” - nunca atingiu um patamar de relevo nacional, somente local e concelhio, alimentando alguns egos, vontades e desejos infindáveis… porque este setor passaria por profundos bloqueios contextuais locais e regionais identificáveis, mas nunca assumidos com determinação e, quiçá, modéstia e inteligência, sobretudo a nível do associativismo - união entre patrões - imprescindível e necessário para fazer face ao “enfezamento” que a caraterizou. Também a historiadora Maria Lúcia de Brito Moura se refere aos elementos bloqueadores, dos quais se destacam: a deficiente qualidade das lãs locais dos rebanhos que, associadas às que eram oriundas do Alentejo ou vinham do estrangeiro, exigiam bastantes lavagens, por isso mesmo, pouco lucrativas depois de pesadas; a inexistência ou precaridade da rede viária, chegava apenas a Seia (a ligação a Coimbra, através de uma carreira automóvel, só se verificou em 22/04/1912) – a Loriga, só chegou depois de 19131) – necessitando de realizar o transbordo dos carros puxados por animais para carros movidos a combustível, ou vice-versa; a falta de crédito, não havia instituições bancárias ou quando se recorria aos particulares, o juro rondava os 10€ ou mais. A chegada tardia do correio telegrafo postal, que só chega a S. Romão em 1911 seria também mais um elemento bloqueador. Também o exemplo paradigmático da fábrica de Augusto Luiz Mendes & Sócios que existia na Redondinha, era só para a posse da fábrica, porque para a produção, os sócios serviam-se das máquinas às semanas, produzindo cada um para si, separadamente. Esta falta de união foi sempre o obstáculo ao progresso e desenvolvimento, aliado à falta de modernização. Só para concluir esta questão, atentemos neste pormenor: o trabalho das escolhedeiras, urdideiras e espinçadeiras, bem como o de tinturaria, era feito em casa dos sócios. Perante estes condicionalismos, o porvir do fenómeno industrial loriguense, seria pouco duradouro, definhando 100 anos depois…



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