A grande viagem

Sair da aldeia, deixar o que é familiar, entrar num navio, atravessar o oceano, viajar para o desconhecido não era coisa que se fizesse de ânimo leve. Mas, para muitos, foi a única hipótese de melhorar a vida ou mesmo de sobreviver à dura condição das terras serranas. Ao longo de um século e meio, centenas de emigrantes partiram de Loriga para tentar a sorte no Brasil, mais precisamente no Amazonas.

Não se conhecem muitos relatos das viagens feitas entre Portugal e o Brasil. Às vezes, em duas linhas, nas cartas enviadas à família, já de terra firme, o emigrante dava conta das agruras dos dias passados a bordo: fome, frio e enjoo. Sem grandes delongas, pois a missiva servia, principalmente, para dar conta que chegara bem. Não pretendia assustar os que lhe eram queridos e tinham ficado no torrão natal. Há, contudo, episódios rocambolescos: num documento pertencente ao Museu da Emigração, Francisco José Leite Laje, que partiu do Porto em 1827, no brigue O Invencível, conta que já perto do Rio de Janeiro para onde se dirigia, o navio foi tomado por corsários argentinos.

No século XIX, quando as viagens eram à vela e chegavam a durar mais de 50 dias, os emigrantes pobres (os passageiros de proa) eram amontoados tendo como único direito uma enxerga, um copo, um prato e uma colher (de metal) que serviriam até ao fim da viagem. A dieta parecia a dos primeiros tempos dos Descobrimentos: biscoito, carne ou peixe salgado e a novidade, arroz. Dormiam num porão escuro e com pouca ventilação, sem condições mínimas de higiene. Os veleiros que seguiam para o Brasil tinham uma capacidade até 400 toneladas e, dependendo do volume da carga, poderiam transportar até 200 pessoas.

Em meados do século, já com navios a vapor, a duração da viagem ficou em quase metade do tempo e as condições melhoraram um pouco para os menos afortunados mas, nem por isso, a viagem se tornou menos dura.

No tempo das riquezas feitas com a exploração da borracha, havia um vaivém constante de chegadas e partidas do porto de Belém e as deslocações a Portugal de gente entretanto bafejada pela fortuna dos grandes negócios ou remediada pelos pequenos comércios eram frequentes. O movimento portuário ocupava um grande espaço na imprensa local. No caso dos loriguenses, o assunto era abordado nos jornais fundados pelos membros mais importantes da colónia, tanto em Manaus como em Belém. Quem vinha e em qual navio, quem abrira novo negócio, quem partia para passar um tempo em Portugal, o calendário das viagens dos diversos navios, um pouco de tudo o que poderia interessar mas, também, a exibição do êxito que tinham alcançado.

Trocar a montanha pelo mar

A viagem para o Brasil começava muito antes de um dos vários navios que faziam a carreira da América do Sul largar amarras de Lisboa ou do Porto. As viagens eram caras, podiam chegar ao 33 mil réis. Para conseguirem comprar uma passagem, os candidatos desfaziam-se de tudo o que podiam, e como já não deviam possuir muitos bens, ia a casita de pedra, talvez um pedaço de terra se houvesse, endividavam-se com familiares e catavam todas as moedas possíveis de juntar. Às vezes, eram os que já tinha prosperado, os futuros patrões ou os parentes que enviavam a carta de chamada que emprestavam o dinheiro em falta para as despesas da viagem. Contas feitas num documento do Museu da Emigração "usando como referência a jorna ou a jeira, salário diário de um trabalhador rural no valor de $ 160 réis", seriam necessários cerca de 208 dias de trabalho para pagar uma viagem ao Brasil.

Loriga, era longe de tudo, terra metida no meio da serra, não dava grande escolha a quem quisesse melhorar de vida: ou emigrava… ou emigrava. Só mais tarde, com a fixação no Brasil de uma colónia já bem instalada na vida e com o envio de dinheiro para benfeitorias na vila e a criação de uma indústria ligada aos lanifícios, houve a possibilidade de ficar, trabalhar e ter algum futuro, mesmo que modesto.

Nos primeiros tempos da emigração, o viajante ia de burro, de carro de bois ou mesmo a pé, acartando os seus pertences durante vários quilómetros, até chegar a um ponto onde poderia apanhar uma camioneta ou um comboio conforme o transporte da época. O Padre António Lajes, uma personagem importante na história de Loriga, escreveu uma pequena ficção sobre um grupo de loriguenses candidatos a partir para o Amazonas que não deve estar longe da realidade. As lágrimas da família, as despedidas dolorosas, as orações para que o céu os protegesse e chegassem a bom porto, de tudo isso se compunha o ritual do adeus. No dia aprazado, partiam os emigrantes, seguidos de outros tantos amigos que lhes levavam os baús até um certo ponto do caminho onde apanhariam uma diligência para Coimbra. Depois, seguirão na mala-posta para Lisboa onde chegam sem grandes aflições, muito a tempo de embarcar. Tudo isto teria durado quinze dias. Seguir-se-iam os dois meses de mar, a dureza que os esperava pela proa. Para quem nunca vira o mar, era um início doloroso, pelo incómodo do alojamento, pelo enjoo contínuo e pelo tempo que demorava até se chegar ao destino, o Brasil e a miragem de uma vida melhor.

Outros navios outras condições

Nos anos 30 do século XX, os navios que faziam o transporte de emigrantes nada tinham a ver com os tempos sofridos da vela e do vapor. Os viajantes já eram "tratados como pessoas humanas e não como animais", desabafa Eugénio Leitão de Brito que deixou em "Minhas Memórias da Cidade Velha" a descrição da viagem que o levou para o Brasil quando tinha apenas 13 anos.

A diferença era abismal, a 3ª classe, o bilhete de viagem mais barato, comportava um camarote com beliches, alimentos de qualidade e com fartura e e outras regalias. Por força das alterações legislativas de então, os navios quaisquer que fossem as suas nacionalidades desde que levassem portugueses a bordo eram obrigados a ter médico, enfermeiro, cozinheiro, empregados de mesa e camaroteiros também portugueses. Para o jovem Eugénio, só uma coisa não mudara, o grande enjoo que o pôs fora de combate mal o Hildebrand (navio da Booth Line que tanta gente transportou para a Amazónia) passou pelo farol do Bugio. Arrastou-se como pôde nos restantes dias e conseguiu chegar vivo ao Funchal onde o navio fez a primeira escala. A segunda já seria em terras do Brasil, Belém, destino do rapaz, onde o aguardavam o pai e outros familiares.

Mais uma vez a tecnologia náutica veio em auxílio de quem tinha o oceano como estrada. Foi o tempo das grandes viagens, das mais famosas companhias de navegação, um tempo de navios mais rápidos, com pelo menos três classes adequadas às posses dos diferentes tipos de passageiros, cada vez com mais conforto e diversão a bordo. Vinha ainda longe a época dos transportes aéreos.

Em meados dos anos 50, também parti. Da minha primeira viagem marítima, por acaso até Belém, não me lembro do enjoo, mas das brincadeiras com as outras crianças que iam a bordo e da vigilância apertada da tripulação já que a mãe estava quase morta de tanto vomitar. Não parámos na Madeira, mas estivemos umas boas horas em Trinidad antes de seguirmos para o Pará. Não me lembro de ver aproximar-se a terra do Brasil, mas senti que estava a entrar em outro mundo pelo cheiro diferente e adocicado que me chegava de longe. Estávamos parados em frente ao mercado de ver-o-peso. Frutas, muitas frutas estranhas e um perfume que nunca mais poderei esquecer.

Bibliografia

  • Texto da autoria de Maria Júlia Fernandes
  • BRITO, Eugénio Leitão, Minhas Memórias da Cidade Velha, Belém, 1997
  • DAOU, Ana Maria A Belle Époque amazónica, Ed.Jorge Zahar, 2000;
  • LEITE, Joaquim da Costa, "O transporte de emigrantes da vela ao vapor na rota do Brasil", in Análise Social, vol.XXVI, 1991; www.museu-emigrantes.org/memorias/memorias de viagem, textos de Miguel Monteiro


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